Uma passagem bem próxima do franciscanismo da Santa Cruz da Serra de Sintra:
"Rejeita a sabedoria e o conhecimento
O povo tirará assim cem vezes mais proveito.
Rejeita a bondade e a justiça
O povo voltará à piedade filial e ao amor paternal.
Rejeita a indústria e o seu lucro
Os ladrões e os bandidos desaparecerão.
Se estes três preceitos não forem suficientes
ordena o que se segue:
distingue o simples e abraça o natural,
reduz o teu egoísmo e refreia os teus desejos."
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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
sábado, 16 de janeiro de 2010
As capelas do "Ecce Homo" em Sintra e Varatojo
"Ao percorrer esta matazinha, que não foi plantada com artísticos cuidados, mas fôra um pedaço de monte, cujos arbustos cresceram à mercê da sua natureza e formaram selva, mais ao diante aproveitada pelo primeiro colono, estabelecido naquele monte, convertendo-a depois em quinta utilitária e de recreio o primeiro proprietário que no lugar se estabelecera.
Uma capelinha mariana, erguida no local do antigo sobreiro, no fim do século quinze, continua a lembrar-nos o encontro da imagem milagrosa, agora venerada na sua capela da portaria conventual. Andada uma dúzia de passos frente àquela capelinha da mata, topamos, à esquerda, o antigo forno da cal que ele fornecera para o convento, nos anos de 1470-1474, convertido em devotíssima capela, com três grutas, abertas na sua circunferência, cada qual com sua imagem. A principal, à frente de quem entra, forma uma pequenina capelinha, azulejada com quadros de raro acabamento, datados do ano 1737.
A imagem antiga ali venerada era a do Senhor Ecce Homo; actualmente, porque esta desaparecesse com a invasão dos republicanos em 1910, foi substituída pelo Senhor à Coluna".
(Sobre a capelinha do Varatojo, fonte)
Uma capelinha mariana, erguida no local do antigo sobreiro, no fim do século quinze, continua a lembrar-nos o encontro da imagem milagrosa, agora venerada na sua capela da portaria conventual. Andada uma dúzia de passos frente àquela capelinha da mata, topamos, à esquerda, o antigo forno da cal que ele fornecera para o convento, nos anos de 1470-1474, convertido em devotíssima capela, com três grutas, abertas na sua circunferência, cada qual com sua imagem. A principal, à frente de quem entra, forma uma pequenina capelinha, azulejada com quadros de raro acabamento, datados do ano 1737.
A imagem antiga ali venerada era a do Senhor Ecce Homo; actualmente, porque esta desaparecesse com a invasão dos republicanos em 1910, foi substituída pelo Senhor à Coluna".
(Sobre a capelinha do Varatojo, fonte)
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sábado, 28 de março de 2009
Sobre o Hábito e Calçado dos Arrábidos
Mas os outros frades que prometeram obediência tenham uma túnica com capuz e outra sem capuz, se for necessário, e o cíngulo e as bragas. E todos os frades vistam-se de roupas vis e possam remendá-las com sacos e outros retalhos com a bênção de Deus, porque diz o Senhor no evangelho: "Os que estão em vestes preciosas também estão em delícias" (Lc 7,25) e "os que se vestem de moles estão nas casas dos reis" (Mt 11,8)."
Da Regra não-bulada da Ordem de São Francisco.
Da Regra não-bulada da Ordem de São Francisco.
Um dos elementos identificativos e mais simbolicamente explícitos dos franciscanos era o seu hábito. Os hábitos franciscanos eram o mais visível dos elementos simbólicos transportados pelos frades, sendo denunciadores da "santa pobreza, vileza e desprezo do mundo" característica da ideia e devoção original da Ordem, e mais tarde de algumas das suas diversas matizes.
O Estatuto da Provincia da Arrabida, de 1693, contém obviamente um capítulo inteiramente dedicado a este tema (Capítulo XXV - Dos Habitos & Calçado), o qual refere alguns aspectos bem interessantes relacionados com o código de vestuário dos frades.
Começa por distinguir o frades saudáveis daqueles que estejam enfermos, permitindo a estes últimos confortos adicionais, o que é comum a outros aspectos desenvolvidos nos Estatutos, acrescentando logo em seguida que se permitirá aos frades manterem os seus hábitos remendados com recurso a panos grossos de sacos, portanto incómodos e em jeito de penitência e louvor da santa pobreza evangélica.
A propósito, é interessante notar que este costume - originário da necessidade de ir mantendo o hábito em condições de ser usado - resultava em trajes multicoloridos, mais tarde proibidos por uma revisão das disposições estatutárias da Ordem. Lendo o capítulo dedicado a Fr. Honório de Santa Maria, contido na Crónica da Província, verificamos que de facto assim era: "Para mayor lustre da sua observancia, naõ tinha cousa alguma do seu uso, mais que o Habito, taõ vil, como composto de pedaços de varias cores, taõ estreito, que mal o podia vestir, e taõ curto, que apenas lhe chegava aos artelhos dos pés, e pulsos dos braços".
A cada frade eram concedidos "dous pannos menores", que deveriam atacar à cintura com uma corda de "cayro grossa, como costume da provincia". Os panos deveriam acompanhar todo o corpo, e ficar - no comprimento - a um ou dois dedos do chão. De roda deveriam ter nove a dez palmos, salvo no caso dos frades "mais corpulentos". Mandava também o estatuto que os capelos - cozidos ao hábito - tivessem a forma daqueles que usavem os Capuchos italianos. Usavam também mantos cingidos ao corpo.
A mudança de Hábito - ou seja, o pedido de um novo pano - carecia de autorização do Prelado.
No que ao calçado diz respeito, é sabido que os arrábidos deveriam observar com rigor o costume de andarem descalços, mas poderia o Irmão Ministro autorizar mediante licença in scriptis que determinado frade usasse sandálias. Sabe-se todavia que no Convento de Sintra havia quem usasse sandálias nos seus percursos externos à cerca (ex. Frei Cristovão de São José) e havia também quem fosse do Convento à Vila sem nada a proteger a pele dos pés (ex. Frei Miguel Falcão, que certo dia sofreu por esse facto uma profunda ferida num dos pés).
Nos dormitórios não se podia andar calçado, sob pena de disciplina, mas esta lei não se aplicava aos doentes ou a outros casos de necessidade.
Sobre a Província da Arrábida
Da obra "Mappa de Portugal antigo, e o moderno", pelo Padre Joaõ Bautista de Castro (Tomo II, Parte III e IV), ano de 1763.
A Penitente, e observante Provincia da Arrabida foy erecta em Portugal pelo Veneravel Padre Fr. Martinho de Santa Maria, natural de Cartagena de Levante, o qual encontrando-se na romaria de N. Senhora de Guadalupe com o Ilustrissimo D. Joaõ de Lencastre, Duque de Aveiro, seu parente, e convidado por elle para vir fundar na Serra da Arrabida, e na Ermida, que alli tinha o Duque, obtida licença do Padre Geral Fr. Joaõ Calvo, se poz em execuçaõ a nova fabrica no anno de 1539, ou 1542.
Logo se aggregaraõ Religiosos de varias partes, varões de grande penitencia, e entre elles Fr. Joaõ de Aguila, e S. Pedro de Alcantara, filhos da Provincia de S. Gabriel de Castella, e assim perseveraraõ naquelle sitio primeiro, que foy no alto da Serra, e se foraõ fundando outros Conventos de sorte, que no anno de 1545 já era Custodia, quando o Veneravel Fundador faleceo no Hospital de todos os Santos em Lisboa. Depois à instancia do Cardeal D. Henrique concedeo Pio IV a erecçaõ em Provincia no ano de 1560. Consta presentemente dos Conventos seguintes.
A Penitente, e observante Provincia da Arrabida foy erecta em Portugal pelo Veneravel Padre Fr. Martinho de Santa Maria, natural de Cartagena de Levante, o qual encontrando-se na romaria de N. Senhora de Guadalupe com o Ilustrissimo D. Joaõ de Lencastre, Duque de Aveiro, seu parente, e convidado por elle para vir fundar na Serra da Arrabida, e na Ermida, que alli tinha o Duque, obtida licença do Padre Geral Fr. Joaõ Calvo, se poz em execuçaõ a nova fabrica no anno de 1539, ou 1542.
Logo se aggregaraõ Religiosos de varias partes, varões de grande penitencia, e entre elles Fr. Joaõ de Aguila, e S. Pedro de Alcantara, filhos da Provincia de S. Gabriel de Castella, e assim perseveraraõ naquelle sitio primeiro, que foy no alto da Serra, e se foraõ fundando outros Conventos de sorte, que no anno de 1545 já era Custodia, quando o Veneravel Fundador faleceo no Hospital de todos os Santos em Lisboa. Depois à instancia do Cardeal D. Henrique concedeo Pio IV a erecçaõ em Provincia no ano de 1560. Consta presentemente dos Conventos seguintes.
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quarta-feira, 25 de março de 2009
Frei Cristovão de S. José e o túmulo dos Capuchos
Um dos veneráveis Padres que passou pelo Convento dos Capuchos de Sintra, e que ali encontrou a sua última morada, foi Frei Cristovão de São José, natural da cidade de Lisboa, "vulgarmente chamado o Biltre" (epíteto pouco próprio de um franciscano arrábido "servo de Deus").
Frei Cristovão teve uma vida cheia de episódios notáveis, viajou muito (esteve na Terra Santa, em Itália - com passagem por Roma -, França e Castela) e chegou a passar pelo cárcere, antes de rumar a Sintra, onde se internou como recoleto frade do cenóbio da Serra.
Não sei ao certo em que ano nasceu, nem aquele em que morreu, mas sei que foi contemporâneo de Caetano de Melo e Castro, 36º Vice-Rei da Índia, nascido em 1680 e falecido em 1718. Assim, diria que o episódio a que aqui aludo - o da sua morte e transladação para Sintra - se terá passado já no século XVIII.
Frei Cristovão viveu na Arrábida, e dali passou para Sintra ("Relicário de toda a Ordem Seráfica pela sua pequenez, e suma pobreza..."), onde esteve pelo período de 30 anos. Diz a Crónica da Provincia que ali viveu na cela mais escura, mais húmida e mais incómoda de todas, já que a sua mediana estatura não lhe permitia sequer estender-se nela. Na Casa de Sintra todos "lhe davam venerações de Santo".
Na maior parte dos 30 anos que viveu no Convento de Santa Cruz assumiu a função de Porteiro, contactando assim frequentemente com todos aqueles que ao cenóbio se dirigiam, em particular os pobres que ali iam buscar a sua esmola.
Exemplar no cumprimento dos estatutos da Provincia, tinha como coisas do seu uso (usus pauper) apenas uma cruz de pau que guardava na cela, dois panos menores ("que conservava há anos a poder de remendos") e dois lenços. Interessante notar que de acordo com a crónica fumava, mas não à vista dos seculares. Outros textos, posteriores a este de 1737, referem outros frades fumadores do Convento, e até um guarda meio-ermitão que já depois de 1834 ali morava, de seu nome António.
Conta a Crónica que certa vez se dirigiu ao Rei D. Pedro II - que reinou na viragem dos séculos XVII para XVIII -, a quem procurou em Alcântara, na Igreja de Nossa Senhora das Necessidades, e que o monarca atendeu o seu pedido, já que "venerava sua majestade muito ao servo de Deus pelo conceito que tinha da sua virtude...".
O mesmo texto fala de um episódio da vida de Frei Cristovão, que aconteceu no regresso de uma ida a Colares, onde havia estado com um Companheiro. Espesso nevoeiro abateu-se sobre a Serra, e os dois franciscanos acabaram por se separar, chegando o Companheiro ao Convento, ao passo que Frei Cristovão apenas no dia seguinte chegaria, sem manto nem sandálias, razão pela qual foi mandado fazer disciplina pelo Prelado.
Frei Cristovão contou depois de havia passado a noite caminhando pelos matos da Serra, não dando com o Convento apesar do Guardião ter mandado que se picasse o sino. O alforge, seu manto bem como as sandálias chegariam ao Convento dias mais tarde, depois de encontrados pela Serra por pastores.
Com perto de 80 anos de idade, doente e com a percepção de que se aproximava a hora de morrer, Frei Cristovão ocultou aos irmãos a sua "última enfermidade", mas o Guardião acabou por ter dela conhecimento, ordenando que partisse para Lisboa, onde eram tratados os frades de Sintra que adoeciam.
No caminho para Lisboa parou na Quinta do já referido Caetano de Melo e Castro (seria a de Monserrate?), e ali foi "recebido e tratado com grande amor". Vendo que a vida o deixava, Frei Cristovão pediu a uma cunhada do Vice-Rei que chamasse o seu Guardião, para lhe dar a extrema unção, e passou a noite na capela da Quinta, na companhia do Capelão da Casa.
No amanhecer seguinte chegou à Quinta do Guardião de Sintra, e ali disse Missa. A pedido de Frei Cristovão, deu-lhe a extrema unção, e depois rezou-se o Ofício da Agonia, ao qual ia respondendo. As suas últimas palavras foram "In Manus tuas, Domine, commendo Spiritum meum", precisamente as últimas sete palavras d'O Cristo antes da sua morte na Cruz (Lucas 23:46, "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito"). Eram cerca das onze horas da manhã.
Pelas três iniciaram-se os trabalhos de transladação para o Convento, e quando o Guardião lhe pegou encontrou o corpo de Frei Cristovão tão flexível que parecia ainda animado de vida. Diz também a crónica que, achando-se sozinhas na presença do corpo, as criadas da Casa o picaram, e o sangue que saiu era tão líquido que com ele banharam lenços e paninhos, "que guardaram com estimação de preciosas relíquias". O corpo foi muitos acompanhado até ao Conventinho, onde se encontra a sua sepultura, localizada no Alpendre da Portaria, sendo um dos dois que se encontram junto à porta da Igreja conventual.
Frei Cristovão teve uma vida cheia de episódios notáveis, viajou muito (esteve na Terra Santa, em Itália - com passagem por Roma -, França e Castela) e chegou a passar pelo cárcere, antes de rumar a Sintra, onde se internou como recoleto frade do cenóbio da Serra.
Não sei ao certo em que ano nasceu, nem aquele em que morreu, mas sei que foi contemporâneo de Caetano de Melo e Castro, 36º Vice-Rei da Índia, nascido em 1680 e falecido em 1718. Assim, diria que o episódio a que aqui aludo - o da sua morte e transladação para Sintra - se terá passado já no século XVIII.
Frei Cristovão viveu na Arrábida, e dali passou para Sintra ("Relicário de toda a Ordem Seráfica pela sua pequenez, e suma pobreza..."), onde esteve pelo período de 30 anos. Diz a Crónica da Provincia que ali viveu na cela mais escura, mais húmida e mais incómoda de todas, já que a sua mediana estatura não lhe permitia sequer estender-se nela. Na Casa de Sintra todos "lhe davam venerações de Santo".
Na maior parte dos 30 anos que viveu no Convento de Santa Cruz assumiu a função de Porteiro, contactando assim frequentemente com todos aqueles que ao cenóbio se dirigiam, em particular os pobres que ali iam buscar a sua esmola.
Exemplar no cumprimento dos estatutos da Provincia, tinha como coisas do seu uso (usus pauper) apenas uma cruz de pau que guardava na cela, dois panos menores ("que conservava há anos a poder de remendos") e dois lenços. Interessante notar que de acordo com a crónica fumava, mas não à vista dos seculares. Outros textos, posteriores a este de 1737, referem outros frades fumadores do Convento, e até um guarda meio-ermitão que já depois de 1834 ali morava, de seu nome António.
Conta a Crónica que certa vez se dirigiu ao Rei D. Pedro II - que reinou na viragem dos séculos XVII para XVIII -, a quem procurou em Alcântara, na Igreja de Nossa Senhora das Necessidades, e que o monarca atendeu o seu pedido, já que "venerava sua majestade muito ao servo de Deus pelo conceito que tinha da sua virtude...".
O mesmo texto fala de um episódio da vida de Frei Cristovão, que aconteceu no regresso de uma ida a Colares, onde havia estado com um Companheiro. Espesso nevoeiro abateu-se sobre a Serra, e os dois franciscanos acabaram por se separar, chegando o Companheiro ao Convento, ao passo que Frei Cristovão apenas no dia seguinte chegaria, sem manto nem sandálias, razão pela qual foi mandado fazer disciplina pelo Prelado.
Frei Cristovão contou depois de havia passado a noite caminhando pelos matos da Serra, não dando com o Convento apesar do Guardião ter mandado que se picasse o sino. O alforge, seu manto bem como as sandálias chegariam ao Convento dias mais tarde, depois de encontrados pela Serra por pastores.
Com perto de 80 anos de idade, doente e com a percepção de que se aproximava a hora de morrer, Frei Cristovão ocultou aos irmãos a sua "última enfermidade", mas o Guardião acabou por ter dela conhecimento, ordenando que partisse para Lisboa, onde eram tratados os frades de Sintra que adoeciam.
No caminho para Lisboa parou na Quinta do já referido Caetano de Melo e Castro (seria a de Monserrate?), e ali foi "recebido e tratado com grande amor". Vendo que a vida o deixava, Frei Cristovão pediu a uma cunhada do Vice-Rei que chamasse o seu Guardião, para lhe dar a extrema unção, e passou a noite na capela da Quinta, na companhia do Capelão da Casa.
No amanhecer seguinte chegou à Quinta do Guardião de Sintra, e ali disse Missa. A pedido de Frei Cristovão, deu-lhe a extrema unção, e depois rezou-se o Ofício da Agonia, ao qual ia respondendo. As suas últimas palavras foram "In Manus tuas, Domine, commendo Spiritum meum", precisamente as últimas sete palavras d'O Cristo antes da sua morte na Cruz (Lucas 23:46, "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito"). Eram cerca das onze horas da manhã.
Pelas três iniciaram-se os trabalhos de transladação para o Convento, e quando o Guardião lhe pegou encontrou o corpo de Frei Cristovão tão flexível que parecia ainda animado de vida. Diz também a crónica que, achando-se sozinhas na presença do corpo, as criadas da Casa o picaram, e o sangue que saiu era tão líquido que com ele banharam lenços e paninhos, "que guardaram com estimação de preciosas relíquias". O corpo foi muitos acompanhado até ao Conventinho, onde se encontra a sua sepultura, localizada no Alpendre da Portaria, sendo um dos dois que se encontram junto à porta da Igreja conventual.
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sábado, 7 de março de 2009
Vida do Veneravel Fr. Honorio de Santa Maria (parte 2)
"Espelho de Penitentes e Chronica da Provincia de Santa Maria da Arrabida", da autoria de Fr. Antonio da Piedade (Lisboa, 1728).
Parte I. Livro IV. Capitulo XL.
997 A ultima Guardianîa que teve, foy no Convento de Cintra; e sendo absoluto della, lhe concedeo o Provincial, que ficasse morador no mesmo Convento, por lje naõ faltar à espiritual consoluçaõ, que nela sentia; e com licença dos Prelados elegeo por cela huma cova, que está na Cerca, naõ como a de Melibeo toda frondosa, mas sim como aquella de que falla Quinciano, sombria, triste, e medonha, cuja horrorosa vista intimida aos humanos para a verem, quando mais para a habitarem. Ninguem a vê, sem que lhe sirva para despertador da morte; e todos ouvem assombrados, que nele podesse viver dezaseis annos continuos Fr. Honorio, contando já oitenta de idade. A sua cama era huma cortiça, e huma pedra, ou pao lhe servia de cabeceira, sem outra alguma cobertura, com que se pudesse reparar dos frios, mais que a de dous grandes penedos, que lhe impedem a claridade. Nela assistia de dia, e de noite até às Matinas, e as poucas horas que dava de decanso ao corpo, sempre era encolhido. Todas as noites vinha rezar Matinas ao Coro; e o tempo, que restava até se tanger a Prima, passava em altissima contemplaçaõ diante do Santissimo Sacramento, em cuja presença fazia huma dsciplina taõ dilatada, como rigorosa. O sangue, que derramava, o arguia de cruel; porém as feridas se convertiaõ em bocas, que publicavaõ os triunfos da penitencia, contra os ardilosos combates do demonio, que se desvelava em o perseguir.
998 Parecia-lhe limitado este castigo, para domar a rebeldia da carne, que sempre repugna à mortificaçaõ, e usava de hum cilicio de cairo, com que cingia quasi todo o corpo, em cujo tormento rara vez dispensava. Todas as sestas feiras apparecia no refeitorio com hum molho de sylvas ao pescosso, e com os olhos nellas dizia a sua culpa, e tomava a refeiçaõ de paõ, e agua. Nas da Quaresma, em sinal de como trazia na memoria muito presente a Paixaõ do seu amado Jesus, vinha rodeado da contura para cima das mesmas sylvas: disciplinava-se até lhe fazer o Prelado final, e comia em terra. Depois de satisfeitas as suas obrigaçoens, occupava-se nos exercicios mais humildes dos Conventos, mondando a Horta, e alimpando com huma enxada as ruas da Cerca, e outros mais que estavaõ entregues aos cuidados dos Coristas. Prezava-se de muito amante de tanta pobreza, e naõ lhe parecia bem outra cousa, mais que a que se ordenava a obsequiar esta virtude. Para mayor lustre da sua observancia, naõ tinha cousa alguma do seu uso, mais que o Habito, taõ vil, como composto de pedaços de varias cores, taõ estreito, que mal o podia vestir, e taõ curto, que apenas lhe chegava aos artelhos dos pés, e pulsos dos braços; e para que nestas partes se não desfiasse, o fortalecia com ourellas de coiro, e lhe ficavão tambem servindo de aspero cilicio.
999 Com as aguas da penitencia em que se purificavaõ os peccadores, saciava este Servo de Deos a sede, que tinha de lhe salvar as almas, assistindo no Confessionario de dia, e de noite. Tal era a graça, com que ministrava o Sacramento da Penitencia, e taõ copiosos os frutos, que das suas exhortaçoens colhiaõ os penitentes, que de terras muito distantes o vinhaõ procurar, para alivio das suas consciencias. Em muitas occasioens lhe succedeo pelo grande concurso de gente, estar no Confessionario desde a manhãa até à noite; e quando neste tempo vinha tomar a refeiçaõ corporal, se contentava com paõ, e agua, pedindo licença aos Prelados para dar o mais, que lhe haviaõ guardado, a alguns pobres, que havia confessado. Com este caritativo zelo, quando naõ vinhaõ os penitentes ao Convento, os procurava elle nas suas Freguezias, offerecendo-lhe prompta a suas almas a suave medicina da penitencia. Também os industriava na doutrina Christãa, santo exercicio da oraçaõ mental, e com grande empenho os persuadia, a que professassem a Terceira Regra do nosso serafico Patriarcha, e a observassem em suas casas, o que via observando com extremosa consolaçaõ do seu espirito, e grande gloria de Deos. Chefavaõ repetidas as noticias destas exemplaridades ao Arcebispo de Lisboa D. Jorge de Almeida, e costumava dizer, que naõ havia no seu Arcebispado, quem fizesse mais fruto nas almas dos seus diocesanos, que o Padre Fr. Honorio, e naõ deixava de o encarecer assim aos Prelados, quando o visitavaõ.
Parte I. Livro IV. Capitulo XL.
Vida do Veneravel Fr. Honorio de Santa Maria
997 A ultima Guardianîa que teve, foy no Convento de Cintra; e sendo absoluto della, lhe concedeo o Provincial, que ficasse morador no mesmo Convento, por lje naõ faltar à espiritual consoluçaõ, que nela sentia; e com licença dos Prelados elegeo por cela huma cova, que está na Cerca, naõ como a de Melibeo toda frondosa, mas sim como aquella de que falla Quinciano, sombria, triste, e medonha, cuja horrorosa vista intimida aos humanos para a verem, quando mais para a habitarem. Ninguem a vê, sem que lhe sirva para despertador da morte; e todos ouvem assombrados, que nele podesse viver dezaseis annos continuos Fr. Honorio, contando já oitenta de idade. A sua cama era huma cortiça, e huma pedra, ou pao lhe servia de cabeceira, sem outra alguma cobertura, com que se pudesse reparar dos frios, mais que a de dous grandes penedos, que lhe impedem a claridade. Nela assistia de dia, e de noite até às Matinas, e as poucas horas que dava de decanso ao corpo, sempre era encolhido. Todas as noites vinha rezar Matinas ao Coro; e o tempo, que restava até se tanger a Prima, passava em altissima contemplaçaõ diante do Santissimo Sacramento, em cuja presença fazia huma dsciplina taõ dilatada, como rigorosa. O sangue, que derramava, o arguia de cruel; porém as feridas se convertiaõ em bocas, que publicavaõ os triunfos da penitencia, contra os ardilosos combates do demonio, que se desvelava em o perseguir.
998 Parecia-lhe limitado este castigo, para domar a rebeldia da carne, que sempre repugna à mortificaçaõ, e usava de hum cilicio de cairo, com que cingia quasi todo o corpo, em cujo tormento rara vez dispensava. Todas as sestas feiras apparecia no refeitorio com hum molho de sylvas ao pescosso, e com os olhos nellas dizia a sua culpa, e tomava a refeiçaõ de paõ, e agua. Nas da Quaresma, em sinal de como trazia na memoria muito presente a Paixaõ do seu amado Jesus, vinha rodeado da contura para cima das mesmas sylvas: disciplinava-se até lhe fazer o Prelado final, e comia em terra. Depois de satisfeitas as suas obrigaçoens, occupava-se nos exercicios mais humildes dos Conventos, mondando a Horta, e alimpando com huma enxada as ruas da Cerca, e outros mais que estavaõ entregues aos cuidados dos Coristas. Prezava-se de muito amante de tanta pobreza, e naõ lhe parecia bem outra cousa, mais que a que se ordenava a obsequiar esta virtude. Para mayor lustre da sua observancia, naõ tinha cousa alguma do seu uso, mais que o Habito, taõ vil, como composto de pedaços de varias cores, taõ estreito, que mal o podia vestir, e taõ curto, que apenas lhe chegava aos artelhos dos pés, e pulsos dos braços; e para que nestas partes se não desfiasse, o fortalecia com ourellas de coiro, e lhe ficavão tambem servindo de aspero cilicio.
999 Com as aguas da penitencia em que se purificavaõ os peccadores, saciava este Servo de Deos a sede, que tinha de lhe salvar as almas, assistindo no Confessionario de dia, e de noite. Tal era a graça, com que ministrava o Sacramento da Penitencia, e taõ copiosos os frutos, que das suas exhortaçoens colhiaõ os penitentes, que de terras muito distantes o vinhaõ procurar, para alivio das suas consciencias. Em muitas occasioens lhe succedeo pelo grande concurso de gente, estar no Confessionario desde a manhãa até à noite; e quando neste tempo vinha tomar a refeiçaõ corporal, se contentava com paõ, e agua, pedindo licença aos Prelados para dar o mais, que lhe haviaõ guardado, a alguns pobres, que havia confessado. Com este caritativo zelo, quando naõ vinhaõ os penitentes ao Convento, os procurava elle nas suas Freguezias, offerecendo-lhe prompta a suas almas a suave medicina da penitencia. Também os industriava na doutrina Christãa, santo exercicio da oraçaõ mental, e com grande empenho os persuadia, a que professassem a Terceira Regra do nosso serafico Patriarcha, e a observassem em suas casas, o que via observando com extremosa consolaçaõ do seu espirito, e grande gloria de Deos. Chefavaõ repetidas as noticias destas exemplaridades ao Arcebispo de Lisboa D. Jorge de Almeida, e costumava dizer, que naõ havia no seu Arcebispado, quem fizesse mais fruto nas almas dos seus diocesanos, que o Padre Fr. Honorio, e naõ deixava de o encarecer assim aos Prelados, quando o visitavaõ.
sexta-feira, 6 de março de 2009
Vida do Veneravel Fr. Honorio de Santa Maria (parte 1)
"Espelho de Penitentes e Chronica da Provincia de Santa Maria da Arrabida", da autoria de Fr. Antonio da Piedade (Lisboa, 1728).
Parte I. Livro IV. Capitulo XL.
993 Iguaes nas emprezas mas desiguaes nos fins se mostrão os mundanos, e os penitentes. Todos morrem por não morrer, porque todos mortificão os appetites, em que consiste no sentir dos Filosofos a morte continuada. Há porém esta differença, que os mundanos morrem por dilatar a vida ao corpo, e os penitentes por conservar a vida ao espirito. Com o desejo de viverem mais, se privão aqueles muitas vezes do gosto, que podião ter, comendo, bebendo e passeando, e divertindo-se, só por presumirem lhe será nocivo à saude; e este genero de morte se condemnou já na Gentilidade da loucura. Tudo isto obrão os penitentes, delineando tribulaçoens ao espirito, humiliaçoens aos sentidos, para viver mais com Deos, e este he o sacrificio de que o mesmo Senhor se agrada. Com este argumento concluhio a vida o Veneravel Fr. Honorio de Santa Maria, que lhe durou pelo espaço de novente e cinco annos, consummidos com rigorosas penitencias, e consumados com portentosos finaes da grande aceitação, que tiveram nos agrados Divinos.
994 Foy natural da Villa de Arcos de Valdevez, situada na Provincia de Entre Douro, e Minho; livre porém dos defeituosos costumes, que dos naturaes desta Comarca adverte a Ordenação do nosso Reyno, porque invoca a Deos de todo o coração, para firmar verdadeiro o proposito, com que se resolvera a desprezar o Mundo, e as suas vaidades. Tomou o Habito na Provincia de Portugal, de que depois se formou a de Santo Antonio, e esta vemos hoje dividida na da Conceição. Pelas virtudes, que nelle admirava o Illustrissimo D. Fr. Marcos de Lisboa, Bispo do Porto, o elegeo por seu Companheiro, quando sendo Chronista Geral da Ordem, foy indagar as noticias pelas Provincias entrangeiras. As melhores, que Fr. Honorio colheo, para compor com mais perfeição as acçoens da sua vida, forão as grandes asperezas, abstinencias, continua oração, e a estreitissima observancia da santa pobreza, em que florecia a nossa Provincia, e se aventajava às mais. Determinou logo aproveitarse dellas, julgando seria desta forte a sua composição muito vistosa aos olhos de Deos.
995 No anno de 1561 sendo Provincial Fr. Jacome Peregrino, veyo para a Provincia; e não obstante contar já sessenta annos de idade, tanto era o valor com que abraçava os rigores, que já o podião venerar como exemplar das penitencias. Admirarão-lhe os Padres da Mesa hum espirito muito simplez para os empregos da obediente, e o incorporarão sem a minima repugnancia, como quem esperava respeitallo como Oraculo de todas as virtudes. Não se enganarão no juizo, porque tantos forão os respeitos, que conciliou de virtuoso, que ninguem duvidava darlhe as acclamações de Santo; e com esta fama se conservão ainda hoje as suas veneraveis memorias, assim na Provincia, cini en todo o destricto do Convento da Serra de Cintra, onde faleceo, e servio de theatro a suas penitenciais, de campo a suas batalhas, e de immortal Padrão aos seus agigantados merecimentos. Supposto que nos Conventos, em que assistio subdito, e governou Prelado, se esmerasse nas exemplaridades de perfeito Religioso, neste da Serra se aventajou tantos nos rigores, e asperezas com que se macerava, que a não apellarmos oaea as valentias da graça, se fazem incriveis das forças da natureza.
996 A todas as mais creaturas, excepto o homem, louvou Deos quando as creou; e o que parece desabono da sua creação, he argumento do seu maior realce. Nem disse que era bom, nem que era mao; porque quiz que elle fosse o mesmo, que desse o assumpto aos seus applausos, ou aos seus vituperios; em suas nãos lhe poz o pincel do livre alvedrio, para que se pintasse como quizesse; e consiste o desatino de alguns, em que podendo pintarse de Anjos, se pintão como brutos; e estes se comparão , quando cegos dos seus appetites se precipitão, podendo resplandecer em virtudes, para participarem daqueles as semelhanças. Estas devemos sem escrupulo contemplar no Veneravel Frey Honorio, que as adquirio pela pureza da vida, matizada com as excelentes cores de muitas disciplinas, oraçoens, vigilias, e abstinencias. Jejuava seis Quaresmas, em que repartia todo o anno, e muitos dias na da Igreja passava somente com hervas cozidas, sem tempero algum, e o paõ, com que as comia, passava pouco mais de duas onças, esse de rala, e do mais duro, que vinha na esmola. Todas as vigilias dos Santos, e sestas feiras era o jejum de paõ, e agua indispensavel. Menos rigorosas eraõ as abstinencias com que se mortificava o Anacoreta Patroclus, e bastarão para o perpetuaram enfermo: triunfou porém o nosso Fr. Honorio com as suas, sendo mais extraordinarias, de toda a enfermidade; antes se conservou tão robusto, que nunca foy sangrado, nem nas Enfermarias foy visto já mais com alguma doença.
Continuação: Parte 2 | Continua...
Parte I. Livro IV. Capitulo XL.
Vida do Veneravel Fr. Honorio de Santa Maria
993 Iguaes nas emprezas mas desiguaes nos fins se mostrão os mundanos, e os penitentes. Todos morrem por não morrer, porque todos mortificão os appetites, em que consiste no sentir dos Filosofos a morte continuada. Há porém esta differença, que os mundanos morrem por dilatar a vida ao corpo, e os penitentes por conservar a vida ao espirito. Com o desejo de viverem mais, se privão aqueles muitas vezes do gosto, que podião ter, comendo, bebendo e passeando, e divertindo-se, só por presumirem lhe será nocivo à saude; e este genero de morte se condemnou já na Gentilidade da loucura. Tudo isto obrão os penitentes, delineando tribulaçoens ao espirito, humiliaçoens aos sentidos, para viver mais com Deos, e este he o sacrificio de que o mesmo Senhor se agrada. Com este argumento concluhio a vida o Veneravel Fr. Honorio de Santa Maria, que lhe durou pelo espaço de novente e cinco annos, consummidos com rigorosas penitencias, e consumados com portentosos finaes da grande aceitação, que tiveram nos agrados Divinos.
994 Foy natural da Villa de Arcos de Valdevez, situada na Provincia de Entre Douro, e Minho; livre porém dos defeituosos costumes, que dos naturaes desta Comarca adverte a Ordenação do nosso Reyno, porque invoca a Deos de todo o coração, para firmar verdadeiro o proposito, com que se resolvera a desprezar o Mundo, e as suas vaidades. Tomou o Habito na Provincia de Portugal, de que depois se formou a de Santo Antonio, e esta vemos hoje dividida na da Conceição. Pelas virtudes, que nelle admirava o Illustrissimo D. Fr. Marcos de Lisboa, Bispo do Porto, o elegeo por seu Companheiro, quando sendo Chronista Geral da Ordem, foy indagar as noticias pelas Provincias entrangeiras. As melhores, que Fr. Honorio colheo, para compor com mais perfeição as acçoens da sua vida, forão as grandes asperezas, abstinencias, continua oração, e a estreitissima observancia da santa pobreza, em que florecia a nossa Provincia, e se aventajava às mais. Determinou logo aproveitarse dellas, julgando seria desta forte a sua composição muito vistosa aos olhos de Deos.
995 No anno de 1561 sendo Provincial Fr. Jacome Peregrino, veyo para a Provincia; e não obstante contar já sessenta annos de idade, tanto era o valor com que abraçava os rigores, que já o podião venerar como exemplar das penitencias. Admirarão-lhe os Padres da Mesa hum espirito muito simplez para os empregos da obediente, e o incorporarão sem a minima repugnancia, como quem esperava respeitallo como Oraculo de todas as virtudes. Não se enganarão no juizo, porque tantos forão os respeitos, que conciliou de virtuoso, que ninguem duvidava darlhe as acclamações de Santo; e com esta fama se conservão ainda hoje as suas veneraveis memorias, assim na Provincia, cini en todo o destricto do Convento da Serra de Cintra, onde faleceo, e servio de theatro a suas penitenciais, de campo a suas batalhas, e de immortal Padrão aos seus agigantados merecimentos. Supposto que nos Conventos, em que assistio subdito, e governou Prelado, se esmerasse nas exemplaridades de perfeito Religioso, neste da Serra se aventajou tantos nos rigores, e asperezas com que se macerava, que a não apellarmos oaea as valentias da graça, se fazem incriveis das forças da natureza.
996 A todas as mais creaturas, excepto o homem, louvou Deos quando as creou; e o que parece desabono da sua creação, he argumento do seu maior realce. Nem disse que era bom, nem que era mao; porque quiz que elle fosse o mesmo, que desse o assumpto aos seus applausos, ou aos seus vituperios; em suas nãos lhe poz o pincel do livre alvedrio, para que se pintasse como quizesse; e consiste o desatino de alguns, em que podendo pintarse de Anjos, se pintão como brutos; e estes se comparão , quando cegos dos seus appetites se precipitão, podendo resplandecer em virtudes, para participarem daqueles as semelhanças. Estas devemos sem escrupulo contemplar no Veneravel Frey Honorio, que as adquirio pela pureza da vida, matizada com as excelentes cores de muitas disciplinas, oraçoens, vigilias, e abstinencias. Jejuava seis Quaresmas, em que repartia todo o anno, e muitos dias na da Igreja passava somente com hervas cozidas, sem tempero algum, e o paõ, com que as comia, passava pouco mais de duas onças, esse de rala, e do mais duro, que vinha na esmola. Todas as vigilias dos Santos, e sestas feiras era o jejum de paõ, e agua indispensavel. Menos rigorosas eraõ as abstinencias com que se mortificava o Anacoreta Patroclus, e bastarão para o perpetuaram enfermo: triunfou porém o nosso Fr. Honorio com as suas, sendo mais extraordinarias, de toda a enfermidade; antes se conservou tão robusto, que nunca foy sangrado, nem nas Enfermarias foy visto já mais com alguma doença.
Continuação: Parte 2 | Continua...
Sobre as notas biográficas de João de Castro, neto do 4º Vice-Rei da Índia
De Sebastianismo temos falado aqui, no SOS Capuchos, avulso e sempre que o tema se justifica. Ora, é a ele que regressamos, para abordar ao de leve a figura de um João de Castro, que não o 4º Vice Rei da Índia, mas antes um seu neto, filho bastardo de D. Álvaro de Castro, e nome maior da defesa do célebre Cavaleiro da Cruz, que acreditava ser de facto o Rei desaparecido D.Sebastião.
Vale a pena ler a biografia deste João de Castro, que viveu na infância com a sua avó D. Leonor Coutinho, até ingressar ainda menino no Mosteiro de Nossa Senhora da Penha Longa (Jerónimo), no sopé da Serra de Sintra.
Ali conheceu um seu companheiro de viagem, "moço honrado de Sintra" e filho de um mestre de obras local conhecido do Cardeal Rei D. Henrique (monarca português ligado à história do Convento), com quem fugiu - pela calada da noite - da Penha Longa, em busca de aventura e outro sentido para a vida. Chamava-se Manuel Carreira.
D. João de Castro (neto) conta-nos nas suas notas autobiográficas que com o seu amigo do tempo da "Pera-Longa" viajou até Évora, ali se fazendo estudante na Universidade local. O neto do Vice-Rei viveu durante alguns anos da misericórdia e esmola alheia, sendo por mais de uma vez referido por si um estudante africano, negro, de seu nome João Pinto ("homem preto, natural do Congo, ou de Angola").
A vida deste descendente do fundador-espiritual do Convento não se cruza, pelo menos que disso eu tenha conhecimento, com os Capuchos de Sintra... Mas no texto que felizmente nos deixou acerca da sua vida meio-vagabunda refere que Manuel Carreira o deixou em Évora, regressando para a casa de seu pai (em Sintra, como já referi), para tomar o hábito franciscano:
"(...) determinou meu companheiro de se tornar para casa de seu pai, como fez, metendo-se ao diante Capucho, ou Descalço (nde: carmelita, portanto), como desejava; de que não sei mais.".
Pergunto-me se Manuel Carreira, que desejava muito ser Capucho como refere João de Castro no início do texto, não teria feito o seu noviciado precisamente no Conventinho de Santa Cruz, já que esta é a única casa franciscana do termo de Sintra. Não conheço nenhum registo nem disponho de informação que o confirme.
É de facto uma pena que a documentação relativa à vida do Convento, incluindo os registos da e sobre a Comunidade que entre 1560 e 1834 ali viveu, esteja desaparecida e muito provavelmente arrumada na estante ou cofre de algum particular. Trata-se de documentação de relevante interesse público, na esfera do estudo do lugar em si e da particular vivência do franciscanismo ali praticada.
Vale a pena ler a biografia deste João de Castro, que viveu na infância com a sua avó D. Leonor Coutinho, até ingressar ainda menino no Mosteiro de Nossa Senhora da Penha Longa (Jerónimo), no sopé da Serra de Sintra.
Ali conheceu um seu companheiro de viagem, "moço honrado de Sintra" e filho de um mestre de obras local conhecido do Cardeal Rei D. Henrique (monarca português ligado à história do Convento), com quem fugiu - pela calada da noite - da Penha Longa, em busca de aventura e outro sentido para a vida. Chamava-se Manuel Carreira.
D. João de Castro (neto) conta-nos nas suas notas autobiográficas que com o seu amigo do tempo da "Pera-Longa" viajou até Évora, ali se fazendo estudante na Universidade local. O neto do Vice-Rei viveu durante alguns anos da misericórdia e esmola alheia, sendo por mais de uma vez referido por si um estudante africano, negro, de seu nome João Pinto ("homem preto, natural do Congo, ou de Angola").
A vida deste descendente do fundador-espiritual do Convento não se cruza, pelo menos que disso eu tenha conhecimento, com os Capuchos de Sintra... Mas no texto que felizmente nos deixou acerca da sua vida meio-vagabunda refere que Manuel Carreira o deixou em Évora, regressando para a casa de seu pai (em Sintra, como já referi), para tomar o hábito franciscano:
"(...) determinou meu companheiro de se tornar para casa de seu pai, como fez, metendo-se ao diante Capucho, ou Descalço (nde: carmelita, portanto), como desejava; de que não sei mais.".
Pergunto-me se Manuel Carreira, que desejava muito ser Capucho como refere João de Castro no início do texto, não teria feito o seu noviciado precisamente no Conventinho de Santa Cruz, já que esta é a única casa franciscana do termo de Sintra. Não conheço nenhum registo nem disponho de informação que o confirme.
É de facto uma pena que a documentação relativa à vida do Convento, incluindo os registos da e sobre a Comunidade que entre 1560 e 1834 ali viveu, esteja desaparecida e muito provavelmente arrumada na estante ou cofre de algum particular. Trata-se de documentação de relevante interesse público, na esfera do estudo do lugar em si e da particular vivência do franciscanismo ali praticada.
quinta-feira, 5 de março de 2009
Leitura aconselhada
Frei Marcos de Lisboa (ou de Betânia), nascido em 1511 e falecido no Porto, cidade de que foi Bispo na fase final da sua vida, em 1591, é um dos nomes maiores do franciscanismo português do século XVI. Feito cronista da Ordem por Frei André da Ínsua, viajou pelo estrangeiro (Espanha, França, Alemanha e Itália), acompanhado por Frei Honório de Santa Maria, frade natural das terras minhotas de Arcos de Valdevez, que em 1561 se recolheu ao Conventinho de Sintra, e nele levou uma vida de grande santidade e devoção a Deus.
Frei Marcos escreveu algumas obras importantes, de entre as quais se destacam as suas Crónicas da Ordem dos Frades Menores, parcialmente disponíveis através da internet. Para aceder a esta obra que vivamente aconselho, clique aqui.
Frei Marcos escreveu algumas obras importantes, de entre as quais se destacam as suas Crónicas da Ordem dos Frades Menores, parcialmente disponíveis através da internet. Para aceder a esta obra que vivamente aconselho, clique aqui.
terça-feira, 3 de março de 2009
Um texto fundamental sobre o Convento
"Espelho de Penitentes e Chronica da Provincia de Santa Maria da Arrabida", da autoria de Fr. Antonio da Piedade (Lisboa, 1728).Clique aqui para aceder ao capítulo XV da Parte I, Livro II, "Fundação do Convento de Santa Cruz da Serra de Cintra".
Poema dedicado a Fr. Agostinho da Cruz
Agostinho Pimenta, que ficou imortalizado com o seu nome religioso de Frei Agostinho da Cruz, foi noviço nos Capuchos de Sintra, tendo aliás feito parte da comunidade inicial que ali se estabeleceu após a fundação do cenóbio, em 1560. É precisamente a essa filiação que alude Santos Cravina no seu soneto "Do berço à tumba", de 1941, incluído no volume "O místico da Arrábida", dedicado ao poeta e místico franciscano.
"Do berço à tumba"
Ponte da Barca é berço do Poeta
de Agostinho Pimenta batisado.
Lá junto ao Lima foi predestinado
para servir a Deus em vida asceta...
De flôres seu caminho se atapeta
em Santa Cruz de Sintra a Deus é dado,
a Setúbal passando. Além do Sado
do Ceu descobre a linda estrada recta.
Ergue na Arrábida a alta Cruz e canta
da Natura e da Fé em mistério
a inteligência humana absorve e espanta...
Servindo a Deus no arrábido ermitério
em Setúbal lhe dá a sua alma santa
e a Arrábida é-lhe Tumba e cemitério.
"Do berço à tumba"
Ponte da Barca é berço do Poeta
de Agostinho Pimenta batisado.
Lá junto ao Lima foi predestinado
para servir a Deus em vida asceta...
De flôres seu caminho se atapeta
em Santa Cruz de Sintra a Deus é dado,
a Setúbal passando. Além do Sado
do Ceu descobre a linda estrada recta.
Ergue na Arrábida a alta Cruz e canta
da Natura e da Fé em mistério
a inteligência humana absorve e espanta...
Servindo a Deus no arrábido ermitério
em Setúbal lhe dá a sua alma santa
e a Arrábida é-lhe Tumba e cemitério.
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
Francisco Caldeira Cabral sobre os Capuchos e a Penha Verde
"Se em todos os aspectos citados até aqui o jardim português se mantêm atrasado em relação aos dos outros povos da Europa, há pelo menos um, em que me parece ter-se-lhe adiantado de bem dois séculos. Refiro-me à concepção naturalista de muitas obras nossas do século XVI, como a Penha Verde e os Capuchos. Nunca mais, e em parte nenhuma se conseguiu um equilíbrio tão perfeito e uma unidade tão completa entre a obra do homem e a da natureza, não como desde o século passado rebaixando o homem ao plano simplesmente natural, mas sim elevando ambos, Natureza e Homem, ao plano divino da criação dentro do conceito católico e franciscano. Não pretendíamos imitar artificiosamente a natureza, mas apenas integrar com raro instinto, na nossa obra, as belezas naturais que encontrámos, fossem elas uma fraga, um velho carvalho ou um vasto panorama. É de notar a preocupação que tivemos de edificar as nossas casas e situar os seus jardins em locais com boa vista, - o que não é para admirar num povo que sempre viveu nas alturas e que quase ignora o que seja a planície.
Foi talvez por este amor da natureza, que o jardim era entre nós a continuação da casa ao ar livre e estava em imediata ligação com ela, o que o desenvolvimento da casa em planta e não em altura facilitava. Quase sempre pelo menos um pequeno terraço se encontrava ao nível do andar de habitação, e as árvores dos nossos jardins emolduram e aconchegam as casas portuguesas."
Texto completo aqui.
Francisco Caldeira Cabral
Fundamentos da AP, pags 129 a 134.
Jardins de Portugal (em Panorama, n.º 15 e 16, Julho de 1943)
Características tradicionais do jardim português
Foi talvez por este amor da natureza, que o jardim era entre nós a continuação da casa ao ar livre e estava em imediata ligação com ela, o que o desenvolvimento da casa em planta e não em altura facilitava. Quase sempre pelo menos um pequeno terraço se encontrava ao nível do andar de habitação, e as árvores dos nossos jardins emolduram e aconchegam as casas portuguesas."
Texto completo aqui.
Francisco Caldeira Cabral
Fundamentos da AP, pags 129 a 134.
Jardins de Portugal (em Panorama, n.º 15 e 16, Julho de 1943)
Características tradicionais do jardim português
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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
A Pobreza e os Franciscanos
por Manuel J. Gandra
In "Joaquim de Fiore, Joaquimismo e Esperança Sebástica" – pp.45 e 46.
Manuel J. Gandra
Fundação Lusíada, n.º2
"(…) Tema crucial da disputa entre espirituais e conventuais. De acordo com S.Boaventura, a pobreza mais não é que a forma de imperfeição exterior que a perfeição exclusiva de Cristo assumira; por esse motivo devia a sua relativa perfeição à graça de Jesus mais do que ao seu valor intrínseco. Na prática, ambos os grupos concordavam que a pobreza constituía um antídoto contra a cupidez, fonte de todo o mal. Porém, os espirituais consideravam que só o usus pauper, i.e., a prática efectiva da pobreza absoluta, era sinal de pobreza evangélica, não passando tudo o resto de transgressão a esse ideal. A adesão ou recusa do usus pauper tornar-se-ia lealdade ou oposição ao exemplo de renúncia ao mundo de S.Francisco, reverenciado como um quase émulo de Cristo e indigitado guia da renovação espiritual e fundador da nova era a que tal santificação conduziria. A veemência das posições dos fraticelli introduziria um tom apocalíptico no debate, uma vez que entendiam a aspiração aos bens e conhecimentos mundanos, como a marca do Anticristo.
Por seu torno, Pedro Juan Olivi, único espiritual que advogara a obediência aos superiores da Ordem e da hierarquia da Igreja, encarava a pobreza evangélica como um estado de perfeição interior, directamente proporcional à caridade como fonte de todo o bem. Assim, quanto maior a renúncia ao mundo, tanto maior a caridade subjacente a essa renúncia. (…)".
In "Joaquim de Fiore, Joaquimismo e Esperança Sebástica" – pp.45 e 46.
Manuel J. Gandra
Fundação Lusíada, n.º2
"(…) Tema crucial da disputa entre espirituais e conventuais. De acordo com S.Boaventura, a pobreza mais não é que a forma de imperfeição exterior que a perfeição exclusiva de Cristo assumira; por esse motivo devia a sua relativa perfeição à graça de Jesus mais do que ao seu valor intrínseco. Na prática, ambos os grupos concordavam que a pobreza constituía um antídoto contra a cupidez, fonte de todo o mal. Porém, os espirituais consideravam que só o usus pauper, i.e., a prática efectiva da pobreza absoluta, era sinal de pobreza evangélica, não passando tudo o resto de transgressão a esse ideal. A adesão ou recusa do usus pauper tornar-se-ia lealdade ou oposição ao exemplo de renúncia ao mundo de S.Francisco, reverenciado como um quase émulo de Cristo e indigitado guia da renovação espiritual e fundador da nova era a que tal santificação conduziria. A veemência das posições dos fraticelli introduziria um tom apocalíptico no debate, uma vez que entendiam a aspiração aos bens e conhecimentos mundanos, como a marca do Anticristo.
Por seu torno, Pedro Juan Olivi, único espiritual que advogara a obediência aos superiores da Ordem e da hierarquia da Igreja, encarava a pobreza evangélica como um estado de perfeição interior, directamente proporcional à caridade como fonte de todo o bem. Assim, quanto maior a renúncia ao mundo, tanto maior a caridade subjacente a essa renúncia. (…)".
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
O Convento: singularidade
Qual pérola escondida num vale em forma de concha (material decorativo e altamente simbólico que os capuchinhos usaram em inúmeras divisões), o Convento tem um conjunto de características que o tornam absolutamente ímpar. Destaca-se, por exemplo, a forma exemplar como foi enquadrado na paisagem natural do lugar, aproveitando os enormes e protectores penedos como elementos estruturantes da singela construção e respeitando a paisagem natural circundante, em que se integrou na perfeição.
É possível observar que o Convento não se prolonga apenas de baixo para cima (ou seja, do sopé do monte para um ponto mais elevado, mas também pela terra adentro), sendo que em divisões como a Capela Conventual temos a impressão de entrar numa gruta (ideia reforçada pela ombreiras das portas, em cortiça) e estar, por completo, no interior da terra.
São também as proporções únicas em que foi construído que o tornam marcadamente diferente dos conventos convencionais – nos Capuchos, a regra franciscana era cumprida com todo o rigor, pelo que a austeridade material por ela consagrada não era, como no caso de outras ordens e outros conventos, ultrapassada na prática diária, em qualquer altura. Os capuchos viviam quotidianamente o exemplo determinante de S. Francisco de Assis, o que é possível constatar em cada recanto deste local de forma mais evidente do que em qualquer outro.
Instalados no verde coração da Serra de Sintra, os frades capuchos do Convento de Santa Cruz misturavam-se com as colossais pedras de Sintra, falavam com as murmurantes árvores, os límpidos regatos, os animais da floresta e amavam o chão que pisavam. É por isso que o Convento dos Capuchos não se situa apenas na Serra. Ele é a própria Serra, na medida em que não vive dela, mas antes para ela, e a partir dela enquanto Templo por excelência de Deus e da Natureza.
É possível observar que o Convento não se prolonga apenas de baixo para cima (ou seja, do sopé do monte para um ponto mais elevado, mas também pela terra adentro), sendo que em divisões como a Capela Conventual temos a impressão de entrar numa gruta (ideia reforçada pela ombreiras das portas, em cortiça) e estar, por completo, no interior da terra.São também as proporções únicas em que foi construído que o tornam marcadamente diferente dos conventos convencionais – nos Capuchos, a regra franciscana era cumprida com todo o rigor, pelo que a austeridade material por ela consagrada não era, como no caso de outras ordens e outros conventos, ultrapassada na prática diária, em qualquer altura. Os capuchos viviam quotidianamente o exemplo determinante de S. Francisco de Assis, o que é possível constatar em cada recanto deste local de forma mais evidente do que em qualquer outro.
Instalados no verde coração da Serra de Sintra, os frades capuchos do Convento de Santa Cruz misturavam-se com as colossais pedras de Sintra, falavam com as murmurantes árvores, os límpidos regatos, os animais da floresta e amavam o chão que pisavam. É por isso que o Convento dos Capuchos não se situa apenas na Serra. Ele é a própria Serra, na medida em que não vive dela, mas antes para ela, e a partir dela enquanto Templo por excelência de Deus e da Natureza.
Rui Vasco Silva
São Francisco de Assis, ontem e amanhã. No oitavo centenário do seu nascimento.
por António Quadros (1982)
1.
Não é qualquer pessoa, a qualquer hora, que tem o direito de escrever sobre S.Francisco de Assis. Porque evocar, ou estudar, ou comentar a vida, o exemplo e a obra desse a que os seus contemporâneos chamaram o Poverello, pressupõe muito menos um exercício intelectual do que uma vivência profunda e continuada.
O que mais nos interpela na sua existência é o dom total do ser, por um abandono de todos os bens terrestres e por um despojamento iluminado e luminoso que reproduz, como nenhuma outra figura heróica e santa, a opção absoluta de Jesus da Nazaré. Interpela-nos e, diremos mais, provoca-nos, instabiliza-nos, angustia-nos (ao mesmo tempo que nos inspira), porque o seu prodigioso e todavia exemplar destino foi possível num contexto social, histórico e humano comum.
A imitação de Cristo, por muito sincera e genuína que seja, permite-nos apesar de tudo uma distância, uma autodesculpa, não tanto porque a pessoa histórica de Jesus viveu a sua breve saga ardente numa época longínqua, noutro continente e numa terra para nós pouco familiar, mas sobretudo porque o filho de Deus, Deus na sua encarnação terrena ou (para os descrentes) o Profeta fundador de uma civilização, nos transcende infinitamente, nos supera vertiginosamente, sem deixar de nos falar, de nos atrair e de nos elevar para o espírito da Verdade.
Por certo que a sua historicidade trouxe a marca de uma fraternidade colectiva para connosco, foi uma inserção exemplar na existência terrena e no espaço social, doou-nos a esperança e a promessa de salvação por uma escatologia a partir da encarnação e da cruz, da morte e da ressurreição em espírito e em carne.
Todavia, continuamos incapazes de sair do palácio das nossas quimeras frustes de grandeza e de partir à descoberta do nosso mais profundo ser, na aventura de existir sublimatoriamente.
Continuamos incapazes, somos incapazes e estremecemos! Cristãos, preferimos o comércio com a nossa mediocridade egoísta, com as nossas ligeiras satisfações, com as nossas curtas ambições, com o azedume amargo das nossas frustrações; instalamo-nos no álibi de não podermos pretender ser Ele, o Cristo.
Mas Francisco de Assis, não o Cristo, um de entre nós, despojou-se um dia de todas as suas vestes, partindo com uma nudez porventura simbólica para a odisseia de uma vida radicalmente ofertada, consagrada à humanidade, à natureza, a Deus. E ficamos então nós próprios, todos os crentes, todos os descrentes, subitamente de alma desnudada, porque já não há álibis.
2.
Francisco tinha nascido na cidade de Assis no ano de 1182, filho da dama Pica, uma senhora nobre da Provença, e do abastado comerciante Pietro di Bernardone. Fora um estroina, um poeta ligeiro, um rapaz rico e prometido a uma carreira fácil e compensadora; depois sentira-se marcado, como tantos jovens da sua geração, pelos ideais da época, a cavalaria e as cruzadas. Fizera a guerra contra Perugia, em defesa da sua terra natal, e aí ficara prisioneiro durante cerca de um ano, entre 1202 e 1203. Mais tarde partiria com um grupo de amigos ao encontro do capitão Ganthier de Brienne, cujas forças lutavam em Itália perturbada de então, sob a bandeira do Papa. A sua intenção era ser armado cavaleiro, mas no caminho para Roma teve uma iluminação que iria marcar e modificar para sempre a sua vida. Foi a visão de Spoletto.
Aí teria ouvido uma voz que o interrogou assim:
- Diz-me, Francisco, porque trocas tu o mestre pelo servidor e o príncipe pelo vassalo?
- Que devo fazer?, perguntou. Ao que a voz respondeu: Regressa à tua pátria, ser-te-á dito o que deves fazer…
A partir de então, Francisco caminha pouco a pouco, mas com a determinação de um místico, de um iluminado, para a assunção total de Cristo em si, levada ao extremo de uma recusa de todos os bens, de todos os confortos, de todas as actividades que não de oração, de dádiva, de serviço total de Deus, procurado e encontrado, não como no pietismo ou no misticismo indiano por uma identificação vertical e por uma reclusão ascética na casa do eu e na procura do nirvana, mas antes no grande teatro do mundo, junto dos homens, dos animais, e da natureza, em acção exemplar de fraternidade e de amor sem limites.
Pede esmola para viver. Abraça os leprosos, Trabalha sozinho na reconstrução da Igreja de S.Damião. Come os restos que lhe dão por caridade Andrajoso, é troçado e humilhado pelos garotos de Assis. E através desta imersão dia a dia mais segura e mais convicta na imensa chaga aberta da humanidade sofredora, descobre não o cansaço, não a fome, não o desânimo, não a hesitação e o medo, mas a alegria, uma alegria fresca e nova, uma alegria de criança, uma alegria de água pura que o retempera e lhe dá forças para continuar na simplicidade de uma destino necessário, diríamos mesmo do único destino gratificante para a sua alma ansiosa de absoluto.
Dá-se a bem conhecida crise com o pai que, irritado, enfurecido, julgando-o louco e irresponsável, o fecha numa cela a pão e água, para mais tarde, depois de uma fuga (libertado pela Dama Pica), o acusar judicialmente, dirigindo-lhe acusações iradas e intransigentes.
É então que, em pleno tribunal, Francisco lhe retribui tudo quanto dele possui ainda, incluindo as vestes que usa. Completamente nu, perante os juízes e o público, fala-lhes com uma serenidade e uma convicção impressionantes:
- Escutem o que tenho para dizer! Até aqui chamei pai a Pietro di Bernardone; mais eis que agora lhe devolvo o seu ouro e todos os trajes que me deu; por isso, já não voltarei a dizer: o meu pai, Pietro di Bernardone, mas antes: Nosso Pai, que estais no Céu!
Francisco parte então, cortados todos os laços com o passado, com a família e com o mundo da sua juventude tão próxima ainda, ao encontro do seu prodigioso destino. Não é por uma doutrina teológica, mas pela experiência de uma vida singular, que vai nascer o ideal franciscano da vida, dando um novo rumo à Igreja de Cristo e à própria história dos homens pela sua aliança de misticismo, altruísmo e acção.
São demasiadamente conhecidos os passos da sua caminhada, para que valha a pena repeti-los. Os primeiros discípulos, a fundação da Ordem, as pregações, os trabalhos quotidianos, as dissenções internas, as viagens, as vigilas, os estigmas, nada se pode resumir em poucas palavras, mas tudo foi heroicidade e coragem, santidade e determinação, ascetismo e no entanto um dinamismo incansável; tudo foi exemplo e tudo foi mensagem ao futuro que somos e seremos. No oitavo centenário do seu nascimento, é uma mensagem insólita, mas que permanece intacta. Uma interpelação que ainda tem poder para nos instabilizar, para nos chocar e para nos desafiar.
Tudo foi fecundo e por isso tudo continua vivo, na existência de Francisco de Assis: até à sua morte. De facto, a poucos dias de morrer, meio cego e atingido por enormes sofrimentos físicos, ao ser-lhe anunciado pelo médico, nesse ano de 1226 (tinha apenas 44 anos) que não podia viver mais do que até Setembro ou princípios de Outubro, S.Francisco (seguimos as páginas clássicas de Joergesen), ficou uns instantes silencioso, mas logo, levantando as mãos para o céu, exclamou: “Sê bem-vinda, minha Irmã Morte”. E depois, como se as palavras tivessem reaberto a fonte poético do seu coração, acrescentou uma última estrofe ao “Cântico do Sol”: “Louvado sejas tu, meu Senhor, pela nossa irmã, a Morte corporal, a que nenhum homem vivo pode escapar…”.
3.
A interpretação de Francisco de Assis foi tão poderosa, que o próprio pai e muitos dos seus contemporâneos preferiram considerá-lo louco. Leonardo Coimbra, que dedicou ao Poverello alguns dos mais penetrantes e luminosos textos que sobre ele se escreveram entre nós, chamou-lhe o louco de Assis, mas para significar que: este louco de Assis é como o louco de Tarso, como os mártires de Roma e de Lião, um contagiado na infinita “Loucura da Cruz”. O contagiado contagia e eis que em Francisco de Assis se reacende a virulência da loucura, e ele é a fonte de um imenso Oceano ainda hoje em tumultuante loucura, que é o franciscanismo. Esse louco não conhece limites, quebrou os muros de bom senso e das conveniências sociais, se será como um vendaval de insensatez varrendo as almas…
Mas esta loucura, sugere o filósofo português noutro lugar, é como que a face adulta da inocência. Francisco de Assis é o homem que vive com inocência e que por isso surpreende toda a criação divina na sua transparência virginal, na raiz ôntica em que desaparecem as diferenças entre os seres vivos e mesmo os seres inanimados.
A teleologia franciscana visa efectivamente, não apenas a salvação dos homens, mas também a redenção da natureza e de todas as criaturas de Deus. O mundo deixa de ser um cenário, onde evolui o protagonista único e isolado do poema escrito por Deus, porque a totalidade dos seres visíveis e invisíveis participa do mesmo movimento escatológico. Torna-se mais humilde a posição do homem, mas ao mesmo tempo com S.Francisco, ressalta a sua grandeza, porque só ele, entre todas as criaturas de Deus, é capaz de ser e ao mesmo tempo de amar para além da barreira da sua própria condição e natureza. As imagens de S.Francisco falando às aves ou do seu discípulo Santo António falando aos peixes impressionaram e continuam a impressionar poderosamente o nosso egoísmo e o nosso antropocentrismo. Com Giotto, pintor franciscano, a natureza deixa de ter uma representação convencional, pois as suas árvores, as suas pedras, os seus regatos, os seus rebanhos de ovelhas adquirem a consistência e a textura que tinha sido esquecidas pelos pintores góticos e bizantinos.
S.Bento, S.Bernardo, S.Francisco conduziram, cada um a seu modo, os mais belos e influentes movimentos de purificação da Igreja de Cristo. Sem menosprezo para outras Ordens, vocacionadas para diferentes fins, Beneditinos, Cistercenses e Franciscanos deram-se as mãos para realizar em si próprios e em seu redor a pureza restituída da mensagem evangélica. Os últimos trouxeram porém inovações surpreendentes, como o alargamento ôntico do ideal cristão da fraternidade, o dinamismo de um amor completamente despojado dos bens materiais e enfim uma ideia por assim dizer menos “eclesiástica” da Igreja de Cristo, na maior confiança posta no homem bom, no leigo dedicado, a quem S.Francisco atribuía uma dignidade quase sacerdotal e para quem criou a Ordem Terceira.
4.
A sensibilidade franciscana é sem dúvida um dos elementos componentes da alma portuguesa. Por uma dessas coincidências ou acasos que evidentemente não o são, há uma contribuição lusa, quase desde a origem, para a formação do ideal franciscano: é a acção extraordinária do primeiro doutor da Ordem, "nas suas três manifestações características: teólogo na cátedra, pregador no púlpito e missionário no mundo". Referimo-nos evidentemente a Santo António de Lisboa que, percurso e o primeiro de uma plêiade de teólogos, de filósofos e de doutores franciscanos de génio, como S.Boaventura, Duns Escoto, Raimundo Lúlio, S.Bernardino de Siena ou Rogério Bacon, terá sido, na expressão do Prof. Joaquim de Carvalho, "o teórico do espírito franciscano e o segundo fundador da Ordem".
A ordem dos Frades Menores entrou aliás em Portugal, apenas meia dúzia de anos após o início do apostolado de S.Francisco, proliferando imediatamente os conventos franciscanos "nas cidades e vilas mais importantes do país". Como disse o historiador Gama Barros, "o progresso da Ordem Terceira foi espantoso, entrando nela, a bem dizer todas as classes, sem exceptuarmos rei e príncipes".
Uma tal predisposição, um sentimento e um conceito tão rapidamente aceites pelo Português, revelam sem dúvida a existência anterior de arquétipos afins e mesmo de tradições culturais e religiosas de sinal próximo.
Sem trazer para aqui raízes mais arcaicas, podemos considerar que o ora et labora beneditino abriu efectivamente um caminho, reforçado pela poderosa influência de S.Bernardo e dos cistercenses a partir de Alcobaça. Todavia mais profunda marca se pode detectar desde cedo na grande e irrecusável matriz cultural que é a Língua.
Anotou Jaime Cortesão que a língua portuguesa é "lírica, franciscana, repassada de ternura e piedade", e que "nenhuma outra é mais rica de diminutivos carinhosos. Duma criança diz-se quase sempre uma criancinha; de uma mulher idosa, uma velhinha; e aos pobres dá-se-lhes logo esmola, chamando-lhes pobrezinhos. Já na Crónica dos Frades Menores, do século XIV, se chama assim aos pobres".
E os diminutivos amoráveis e franciscanos da língua lusa são aplicados também a estados de alma, a horas do dia e da noite, a sentimentos imponderáveis, porque nascem de um amor orientado para todos os modos de ser... Jaime Cortesão lembra no mesmo texto que o português "do crepúsculo matinal dirá manhãzinha; e quando a tarde cai ou a noite se ensombra, a tardinha ou a noitinha".
A lista poderia ser mais alargada: quem sofre é um coitadinho, se é um animal, é o pobre bichinho; a ternura por alguns santos crisma-os de santinhos, tal como o severo Santo António se tornou o Santo Antoninho.
Francisco da Cunha Leão, o autor do O Enigma Português e de Ensaio de Psicologia Portuguesa, escreveu aquele livro que "a religião dos portugueses é vivida mais franciscanamente pela ordem da natureza e do amor do que pelo militantismo como na demais Espanha - avesso que o ocidente se mostra a tudo quanto é rígido".
Na empresa histórica mais significativa da acção portuguesa na ecúmena, dos descobrimentos, o franciscanismo teve lugar relevante, precisamente porque era desde há muito um dos principais elementos da infra-estrutura psíquica e cultura nossa.
E teve-o antes de mais, não só em abstracto pelo seu amor à natureza, pela sua vocação caminheira e vagabunda, pelo seu apostolado de apetência ecuménica, mas também em concreto pela obra teórica de alguns percursores cuja influência terá pesado talvez na própria ideal original da empresa. Jaime Cortesão assinalou que o famoso pensado Raimundo Lúlio (1234-1314), "o Doutor Iluminado, natural da ilha de Maiorca, e o tipo por ventura mais perfeito do proselitismo franciscano preconizou em obras sucessivas o ataque e conquista dos Estados muçulmanos desde Ceuta até ao Levante, e foi o primeiro, segundo Beazley, a sugerir o plano de circumnavegar a África para alcançar a Índia".
O mesmo historiador escreveu que o franciscanismo constitui "a mística dos descobrimentos", querendo significar com esta expressão o complexo das nossas tendências espirituais, que incorporam a expansão geográfica a um pensamento e a uma ética religiosas, eliminando assim a contradição inibitória que existia entre as necessidades económicas e os postulados da religião".
É certo que Jaime Cortesão, na sua teoria da história portuguesa, minimizou ou esqueceu mesmo o papel preponderante da Ordem de Cristo, na concepção espiritual do ecumenismo luso, mas é inegável que a presença dos frades menores nas nossas caravelas, simbolizando o lugar do cristianismo franciscano na estrutura cultural e intelectual portuguesa, contribuiu, escreveu com acerto, para "uma consciência nova da espécie, preparando uma nova fase, em que os povos iam aproximar-se e desenvolver-se pela economia, mas evoluir, unificar-se, exaltar-se como humanidade. Na verdade Portugal ao dar as mãos aos continentes e às raças, realizou um acto de criação livre e universalista".
O poderoso sopro universal que, nascido da obra de S.Francisco de Assis, trouxe dimensões inéditas ao cristianismo e ao mundo, inspirou ou sugeriu movimentos purificatórios, por vezes radicais como o dos "espirituais" ou o dos "fraticelli", de influência notória em Aragão e em Portugal. Por outro lado, muitos franciscanos foram tocados pelas doutrinas do cistercense Joaquim de Flora, que proclamou o Evangelho Eterno e o advento da Terceira Idade, a do Espírito Santo (que sucederia à Idade do Pai e à do Filho, de algum modo matizando ou atenuando o extremismo de muitos joaquimitas, embora aceitando algumas das suas premissas.
O pensador Agostinho da Silva, desenvolvendo algumas pistas desbravadas por Jaime Cortesão, Teixeira de Pascoaes e Fernando Pessoa, expôs em diversos livros e ensaios como Reflexão, As aproximações ou Um Fernando Pessoa, uma original filosofia da história, de raiz franciscana e joaquimita, apontando um lugar simbólico da nossa experiência ecúnemica num vasto movimento de civilização ainda em curso. Alguns dos seus discípulos brasileiros basearam-se neste pensamento para fundamentar a teoria da história da grande nação sul-americana de língua portuguesa.
5.
Não é qualquer pessoa, a qualquer hora, repetimos, que tem o direito de escrever sobre S.Francisco de Assis. Grande ousadia cometemos na verdade, ao fazê-lo mergulhados até ao fundo no grande vazio espiritual da existência moderna. Presos à teia de múltiplas existências quotidianas, evocámos o Poverello não em meditação profunda, mas num trabalho intermitente de escuta, simpática para com a figura exemplar, é certo, mas prejudicada pela brevidade das notas que aqui deixamos, em modesta contribuição para o volume comemorativo do oitavo centenário do seu nascimento.
Deste sentimento de fracasso perante as nossas capacidades de compreensão plena de um ser humano paradigmático, não apenas de uma época e de um ideal, mas sobretudo das tendências mais generosas do espírito humano, surgiu-nos esta interrogação: será ainda possível, na época actual, a prática do cristianismo, tal como a viveu e prego S.Francisco? O franciscanismo será viável no tempo da burocracia, da cidade tentacular, dos meios de comunicação de massa, de um mundo persistentemente conflitual, do mercado e da grande indústria, da educação ateísta e agnóstica, da tecnologia avançada, do indiferentismo social perante o outro?
Para S.Francisco a grande renúncia é sempre um acto livre e individual. A natureza aberta é o terreno de eleição deste ascetismo activo. A vida é risco, é aventura, é dádiva, é sacrifício, é alegria pura do ser sem o ter e sobretudo sem o querer ter... É por outro lado fé e graça, e diálogo com uma transcendência que não se procura porque nos envolve e nos ilumina.
Eis o que hoje, aqui, nos toca e move, mas com um sabor de utopia, quando não de quimera:
E todavia...
E todavia a vida flúi, e esse mundo espiritual que atrás brevemente apontámos é uma realidade em aparência evanescente, mas é talvez ainda uma experiência saudosa, uma prova atraente pela sua mesma dureza, um desafio lançado à humanidade. Na miséria deste mundo - e no conforto deste mundo, em todas as situações deste mundo - o homem é sempre o homem, um ser mistério-interrogativo do seu destino, vocacionado para a morte e nunca totalmente distraído da incompletude e da frustração da sua personalidade satisfeita.
Há uma embriaguez tecnológica que ainda não deixou. Há uma ilusão sociocrática que ainda não perdemos. Há um materialismo sem sentido que ainda não enfrentámos. Há um voluntarismo doentio de que ainda não nos libertámos. Há uma preguiça espiritual que ainda não suportámos. Há mil formas de esperança deslocadas do verdadeiro eixo do ser mais autêtico, de que ainda não acordámos.
Nada se repete na existência longa e multímoda do homem. Mas a criação é um continuum sem intervalos de nada ou de vazio.
Talvez que, depois do grande desencanto que aí vem, possamos reter de S.Francisco o mais profundo da sua mensagem: a capacidade de coragem para escolher com decisão até às últimas consequências entre o que luz mas é o acessório e que se esconde mas é essencial. Entre a positividade exterior das coisas e o mistério do ser patente e recôndito, que é Deus...
1.
Não é qualquer pessoa, a qualquer hora, que tem o direito de escrever sobre S.Francisco de Assis. Porque evocar, ou estudar, ou comentar a vida, o exemplo e a obra desse a que os seus contemporâneos chamaram o Poverello, pressupõe muito menos um exercício intelectual do que uma vivência profunda e continuada.O que mais nos interpela na sua existência é o dom total do ser, por um abandono de todos os bens terrestres e por um despojamento iluminado e luminoso que reproduz, como nenhuma outra figura heróica e santa, a opção absoluta de Jesus da Nazaré. Interpela-nos e, diremos mais, provoca-nos, instabiliza-nos, angustia-nos (ao mesmo tempo que nos inspira), porque o seu prodigioso e todavia exemplar destino foi possível num contexto social, histórico e humano comum.
A imitação de Cristo, por muito sincera e genuína que seja, permite-nos apesar de tudo uma distância, uma autodesculpa, não tanto porque a pessoa histórica de Jesus viveu a sua breve saga ardente numa época longínqua, noutro continente e numa terra para nós pouco familiar, mas sobretudo porque o filho de Deus, Deus na sua encarnação terrena ou (para os descrentes) o Profeta fundador de uma civilização, nos transcende infinitamente, nos supera vertiginosamente, sem deixar de nos falar, de nos atrair e de nos elevar para o espírito da Verdade.
Por certo que a sua historicidade trouxe a marca de uma fraternidade colectiva para connosco, foi uma inserção exemplar na existência terrena e no espaço social, doou-nos a esperança e a promessa de salvação por uma escatologia a partir da encarnação e da cruz, da morte e da ressurreição em espírito e em carne.
Todavia, continuamos incapazes de sair do palácio das nossas quimeras frustes de grandeza e de partir à descoberta do nosso mais profundo ser, na aventura de existir sublimatoriamente.
Continuamos incapazes, somos incapazes e estremecemos! Cristãos, preferimos o comércio com a nossa mediocridade egoísta, com as nossas ligeiras satisfações, com as nossas curtas ambições, com o azedume amargo das nossas frustrações; instalamo-nos no álibi de não podermos pretender ser Ele, o Cristo.
Mas Francisco de Assis, não o Cristo, um de entre nós, despojou-se um dia de todas as suas vestes, partindo com uma nudez porventura simbólica para a odisseia de uma vida radicalmente ofertada, consagrada à humanidade, à natureza, a Deus. E ficamos então nós próprios, todos os crentes, todos os descrentes, subitamente de alma desnudada, porque já não há álibis.
2.
Francisco tinha nascido na cidade de Assis no ano de 1182, filho da dama Pica, uma senhora nobre da Provença, e do abastado comerciante Pietro di Bernardone. Fora um estroina, um poeta ligeiro, um rapaz rico e prometido a uma carreira fácil e compensadora; depois sentira-se marcado, como tantos jovens da sua geração, pelos ideais da época, a cavalaria e as cruzadas. Fizera a guerra contra Perugia, em defesa da sua terra natal, e aí ficara prisioneiro durante cerca de um ano, entre 1202 e 1203. Mais tarde partiria com um grupo de amigos ao encontro do capitão Ganthier de Brienne, cujas forças lutavam em Itália perturbada de então, sob a bandeira do Papa. A sua intenção era ser armado cavaleiro, mas no caminho para Roma teve uma iluminação que iria marcar e modificar para sempre a sua vida. Foi a visão de Spoletto.
Aí teria ouvido uma voz que o interrogou assim:
- Diz-me, Francisco, porque trocas tu o mestre pelo servidor e o príncipe pelo vassalo?
- Que devo fazer?, perguntou. Ao que a voz respondeu: Regressa à tua pátria, ser-te-á dito o que deves fazer…
A partir de então, Francisco caminha pouco a pouco, mas com a determinação de um místico, de um iluminado, para a assunção total de Cristo em si, levada ao extremo de uma recusa de todos os bens, de todos os confortos, de todas as actividades que não de oração, de dádiva, de serviço total de Deus, procurado e encontrado, não como no pietismo ou no misticismo indiano por uma identificação vertical e por uma reclusão ascética na casa do eu e na procura do nirvana, mas antes no grande teatro do mundo, junto dos homens, dos animais, e da natureza, em acção exemplar de fraternidade e de amor sem limites.
Pede esmola para viver. Abraça os leprosos, Trabalha sozinho na reconstrução da Igreja de S.Damião. Come os restos que lhe dão por caridade Andrajoso, é troçado e humilhado pelos garotos de Assis. E através desta imersão dia a dia mais segura e mais convicta na imensa chaga aberta da humanidade sofredora, descobre não o cansaço, não a fome, não o desânimo, não a hesitação e o medo, mas a alegria, uma alegria fresca e nova, uma alegria de criança, uma alegria de água pura que o retempera e lhe dá forças para continuar na simplicidade de uma destino necessário, diríamos mesmo do único destino gratificante para a sua alma ansiosa de absoluto.
Dá-se a bem conhecida crise com o pai que, irritado, enfurecido, julgando-o louco e irresponsável, o fecha numa cela a pão e água, para mais tarde, depois de uma fuga (libertado pela Dama Pica), o acusar judicialmente, dirigindo-lhe acusações iradas e intransigentes.
É então que, em pleno tribunal, Francisco lhe retribui tudo quanto dele possui ainda, incluindo as vestes que usa. Completamente nu, perante os juízes e o público, fala-lhes com uma serenidade e uma convicção impressionantes:
- Escutem o que tenho para dizer! Até aqui chamei pai a Pietro di Bernardone; mais eis que agora lhe devolvo o seu ouro e todos os trajes que me deu; por isso, já não voltarei a dizer: o meu pai, Pietro di Bernardone, mas antes: Nosso Pai, que estais no Céu!
Francisco parte então, cortados todos os laços com o passado, com a família e com o mundo da sua juventude tão próxima ainda, ao encontro do seu prodigioso destino. Não é por uma doutrina teológica, mas pela experiência de uma vida singular, que vai nascer o ideal franciscano da vida, dando um novo rumo à Igreja de Cristo e à própria história dos homens pela sua aliança de misticismo, altruísmo e acção.
São demasiadamente conhecidos os passos da sua caminhada, para que valha a pena repeti-los. Os primeiros discípulos, a fundação da Ordem, as pregações, os trabalhos quotidianos, as dissenções internas, as viagens, as vigilas, os estigmas, nada se pode resumir em poucas palavras, mas tudo foi heroicidade e coragem, santidade e determinação, ascetismo e no entanto um dinamismo incansável; tudo foi exemplo e tudo foi mensagem ao futuro que somos e seremos. No oitavo centenário do seu nascimento, é uma mensagem insólita, mas que permanece intacta. Uma interpelação que ainda tem poder para nos instabilizar, para nos chocar e para nos desafiar.
Tudo foi fecundo e por isso tudo continua vivo, na existência de Francisco de Assis: até à sua morte. De facto, a poucos dias de morrer, meio cego e atingido por enormes sofrimentos físicos, ao ser-lhe anunciado pelo médico, nesse ano de 1226 (tinha apenas 44 anos) que não podia viver mais do que até Setembro ou princípios de Outubro, S.Francisco (seguimos as páginas clássicas de Joergesen), ficou uns instantes silencioso, mas logo, levantando as mãos para o céu, exclamou: “Sê bem-vinda, minha Irmã Morte”. E depois, como se as palavras tivessem reaberto a fonte poético do seu coração, acrescentou uma última estrofe ao “Cântico do Sol”: “Louvado sejas tu, meu Senhor, pela nossa irmã, a Morte corporal, a que nenhum homem vivo pode escapar…”.
3.
A interpretação de Francisco de Assis foi tão poderosa, que o próprio pai e muitos dos seus contemporâneos preferiram considerá-lo louco. Leonardo Coimbra, que dedicou ao Poverello alguns dos mais penetrantes e luminosos textos que sobre ele se escreveram entre nós, chamou-lhe o louco de Assis, mas para significar que: este louco de Assis é como o louco de Tarso, como os mártires de Roma e de Lião, um contagiado na infinita “Loucura da Cruz”. O contagiado contagia e eis que em Francisco de Assis se reacende a virulência da loucura, e ele é a fonte de um imenso Oceano ainda hoje em tumultuante loucura, que é o franciscanismo. Esse louco não conhece limites, quebrou os muros de bom senso e das conveniências sociais, se será como um vendaval de insensatez varrendo as almas…
Mas esta loucura, sugere o filósofo português noutro lugar, é como que a face adulta da inocência. Francisco de Assis é o homem que vive com inocência e que por isso surpreende toda a criação divina na sua transparência virginal, na raiz ôntica em que desaparecem as diferenças entre os seres vivos e mesmo os seres inanimados.
A teleologia franciscana visa efectivamente, não apenas a salvação dos homens, mas também a redenção da natureza e de todas as criaturas de Deus. O mundo deixa de ser um cenário, onde evolui o protagonista único e isolado do poema escrito por Deus, porque a totalidade dos seres visíveis e invisíveis participa do mesmo movimento escatológico. Torna-se mais humilde a posição do homem, mas ao mesmo tempo com S.Francisco, ressalta a sua grandeza, porque só ele, entre todas as criaturas de Deus, é capaz de ser e ao mesmo tempo de amar para além da barreira da sua própria condição e natureza. As imagens de S.Francisco falando às aves ou do seu discípulo Santo António falando aos peixes impressionaram e continuam a impressionar poderosamente o nosso egoísmo e o nosso antropocentrismo. Com Giotto, pintor franciscano, a natureza deixa de ter uma representação convencional, pois as suas árvores, as suas pedras, os seus regatos, os seus rebanhos de ovelhas adquirem a consistência e a textura que tinha sido esquecidas pelos pintores góticos e bizantinos.
S.Bento, S.Bernardo, S.Francisco conduziram, cada um a seu modo, os mais belos e influentes movimentos de purificação da Igreja de Cristo. Sem menosprezo para outras Ordens, vocacionadas para diferentes fins, Beneditinos, Cistercenses e Franciscanos deram-se as mãos para realizar em si próprios e em seu redor a pureza restituída da mensagem evangélica. Os últimos trouxeram porém inovações surpreendentes, como o alargamento ôntico do ideal cristão da fraternidade, o dinamismo de um amor completamente despojado dos bens materiais e enfim uma ideia por assim dizer menos “eclesiástica” da Igreja de Cristo, na maior confiança posta no homem bom, no leigo dedicado, a quem S.Francisco atribuía uma dignidade quase sacerdotal e para quem criou a Ordem Terceira.
4.
A sensibilidade franciscana é sem dúvida um dos elementos componentes da alma portuguesa. Por uma dessas coincidências ou acasos que evidentemente não o são, há uma contribuição lusa, quase desde a origem, para a formação do ideal franciscano: é a acção extraordinária do primeiro doutor da Ordem, "nas suas três manifestações características: teólogo na cátedra, pregador no púlpito e missionário no mundo". Referimo-nos evidentemente a Santo António de Lisboa que, percurso e o primeiro de uma plêiade de teólogos, de filósofos e de doutores franciscanos de génio, como S.Boaventura, Duns Escoto, Raimundo Lúlio, S.Bernardino de Siena ou Rogério Bacon, terá sido, na expressão do Prof. Joaquim de Carvalho, "o teórico do espírito franciscano e o segundo fundador da Ordem".
A ordem dos Frades Menores entrou aliás em Portugal, apenas meia dúzia de anos após o início do apostolado de S.Francisco, proliferando imediatamente os conventos franciscanos "nas cidades e vilas mais importantes do país". Como disse o historiador Gama Barros, "o progresso da Ordem Terceira foi espantoso, entrando nela, a bem dizer todas as classes, sem exceptuarmos rei e príncipes".
Uma tal predisposição, um sentimento e um conceito tão rapidamente aceites pelo Português, revelam sem dúvida a existência anterior de arquétipos afins e mesmo de tradições culturais e religiosas de sinal próximo.
Sem trazer para aqui raízes mais arcaicas, podemos considerar que o ora et labora beneditino abriu efectivamente um caminho, reforçado pela poderosa influência de S.Bernardo e dos cistercenses a partir de Alcobaça. Todavia mais profunda marca se pode detectar desde cedo na grande e irrecusável matriz cultural que é a Língua.
Anotou Jaime Cortesão que a língua portuguesa é "lírica, franciscana, repassada de ternura e piedade", e que "nenhuma outra é mais rica de diminutivos carinhosos. Duma criança diz-se quase sempre uma criancinha; de uma mulher idosa, uma velhinha; e aos pobres dá-se-lhes logo esmola, chamando-lhes pobrezinhos. Já na Crónica dos Frades Menores, do século XIV, se chama assim aos pobres".
E os diminutivos amoráveis e franciscanos da língua lusa são aplicados também a estados de alma, a horas do dia e da noite, a sentimentos imponderáveis, porque nascem de um amor orientado para todos os modos de ser... Jaime Cortesão lembra no mesmo texto que o português "do crepúsculo matinal dirá manhãzinha; e quando a tarde cai ou a noite se ensombra, a tardinha ou a noitinha".
A lista poderia ser mais alargada: quem sofre é um coitadinho, se é um animal, é o pobre bichinho; a ternura por alguns santos crisma-os de santinhos, tal como o severo Santo António se tornou o Santo Antoninho.
Francisco da Cunha Leão, o autor do O Enigma Português e de Ensaio de Psicologia Portuguesa, escreveu aquele livro que "a religião dos portugueses é vivida mais franciscanamente pela ordem da natureza e do amor do que pelo militantismo como na demais Espanha - avesso que o ocidente se mostra a tudo quanto é rígido".
Na empresa histórica mais significativa da acção portuguesa na ecúmena, dos descobrimentos, o franciscanismo teve lugar relevante, precisamente porque era desde há muito um dos principais elementos da infra-estrutura psíquica e cultura nossa.
E teve-o antes de mais, não só em abstracto pelo seu amor à natureza, pela sua vocação caminheira e vagabunda, pelo seu apostolado de apetência ecuménica, mas também em concreto pela obra teórica de alguns percursores cuja influência terá pesado talvez na própria ideal original da empresa. Jaime Cortesão assinalou que o famoso pensado Raimundo Lúlio (1234-1314), "o Doutor Iluminado, natural da ilha de Maiorca, e o tipo por ventura mais perfeito do proselitismo franciscano preconizou em obras sucessivas o ataque e conquista dos Estados muçulmanos desde Ceuta até ao Levante, e foi o primeiro, segundo Beazley, a sugerir o plano de circumnavegar a África para alcançar a Índia".
O mesmo historiador escreveu que o franciscanismo constitui "a mística dos descobrimentos", querendo significar com esta expressão o complexo das nossas tendências espirituais, que incorporam a expansão geográfica a um pensamento e a uma ética religiosas, eliminando assim a contradição inibitória que existia entre as necessidades económicas e os postulados da religião".
É certo que Jaime Cortesão, na sua teoria da história portuguesa, minimizou ou esqueceu mesmo o papel preponderante da Ordem de Cristo, na concepção espiritual do ecumenismo luso, mas é inegável que a presença dos frades menores nas nossas caravelas, simbolizando o lugar do cristianismo franciscano na estrutura cultural e intelectual portuguesa, contribuiu, escreveu com acerto, para "uma consciência nova da espécie, preparando uma nova fase, em que os povos iam aproximar-se e desenvolver-se pela economia, mas evoluir, unificar-se, exaltar-se como humanidade. Na verdade Portugal ao dar as mãos aos continentes e às raças, realizou um acto de criação livre e universalista".
O poderoso sopro universal que, nascido da obra de S.Francisco de Assis, trouxe dimensões inéditas ao cristianismo e ao mundo, inspirou ou sugeriu movimentos purificatórios, por vezes radicais como o dos "espirituais" ou o dos "fraticelli", de influência notória em Aragão e em Portugal. Por outro lado, muitos franciscanos foram tocados pelas doutrinas do cistercense Joaquim de Flora, que proclamou o Evangelho Eterno e o advento da Terceira Idade, a do Espírito Santo (que sucederia à Idade do Pai e à do Filho, de algum modo matizando ou atenuando o extremismo de muitos joaquimitas, embora aceitando algumas das suas premissas.
O pensador Agostinho da Silva, desenvolvendo algumas pistas desbravadas por Jaime Cortesão, Teixeira de Pascoaes e Fernando Pessoa, expôs em diversos livros e ensaios como Reflexão, As aproximações ou Um Fernando Pessoa, uma original filosofia da história, de raiz franciscana e joaquimita, apontando um lugar simbólico da nossa experiência ecúnemica num vasto movimento de civilização ainda em curso. Alguns dos seus discípulos brasileiros basearam-se neste pensamento para fundamentar a teoria da história da grande nação sul-americana de língua portuguesa.
5.
Não é qualquer pessoa, a qualquer hora, repetimos, que tem o direito de escrever sobre S.Francisco de Assis. Grande ousadia cometemos na verdade, ao fazê-lo mergulhados até ao fundo no grande vazio espiritual da existência moderna. Presos à teia de múltiplas existências quotidianas, evocámos o Poverello não em meditação profunda, mas num trabalho intermitente de escuta, simpática para com a figura exemplar, é certo, mas prejudicada pela brevidade das notas que aqui deixamos, em modesta contribuição para o volume comemorativo do oitavo centenário do seu nascimento.
Deste sentimento de fracasso perante as nossas capacidades de compreensão plena de um ser humano paradigmático, não apenas de uma época e de um ideal, mas sobretudo das tendências mais generosas do espírito humano, surgiu-nos esta interrogação: será ainda possível, na época actual, a prática do cristianismo, tal como a viveu e prego S.Francisco? O franciscanismo será viável no tempo da burocracia, da cidade tentacular, dos meios de comunicação de massa, de um mundo persistentemente conflitual, do mercado e da grande indústria, da educação ateísta e agnóstica, da tecnologia avançada, do indiferentismo social perante o outro?
Para S.Francisco a grande renúncia é sempre um acto livre e individual. A natureza aberta é o terreno de eleição deste ascetismo activo. A vida é risco, é aventura, é dádiva, é sacrifício, é alegria pura do ser sem o ter e sobretudo sem o querer ter... É por outro lado fé e graça, e diálogo com uma transcendência que não se procura porque nos envolve e nos ilumina.
Eis o que hoje, aqui, nos toca e move, mas com um sabor de utopia, quando não de quimera:
E todavia...
E todavia a vida flúi, e esse mundo espiritual que atrás brevemente apontámos é uma realidade em aparência evanescente, mas é talvez ainda uma experiência saudosa, uma prova atraente pela sua mesma dureza, um desafio lançado à humanidade. Na miséria deste mundo - e no conforto deste mundo, em todas as situações deste mundo - o homem é sempre o homem, um ser mistério-interrogativo do seu destino, vocacionado para a morte e nunca totalmente distraído da incompletude e da frustração da sua personalidade satisfeita.
Há uma embriaguez tecnológica que ainda não deixou. Há uma ilusão sociocrática que ainda não perdemos. Há um materialismo sem sentido que ainda não enfrentámos. Há um voluntarismo doentio de que ainda não nos libertámos. Há uma preguiça espiritual que ainda não suportámos. Há mil formas de esperança deslocadas do verdadeiro eixo do ser mais autêtico, de que ainda não acordámos.
Nada se repete na existência longa e multímoda do homem. Mas a criação é um continuum sem intervalos de nada ou de vazio.
Talvez que, depois do grande desencanto que aí vem, possamos reter de S.Francisco o mais profundo da sua mensagem: a capacidade de coragem para escolher com decisão até às últimas consequências entre o que luz mas é o acessório e que se esconde mas é essencial. Entre a positividade exterior das coisas e o mistério do ser patente e recôndito, que é Deus...
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