Mostrar mensagens com a etiqueta Castros da Penha Verde. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Castros da Penha Verde. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

D. João de Castro e a Igreja Católica na Índia

A leitura do livro "O papel da Igreja Católica na Índia", de Fernanda Durão Ferreira, permite compreender melhor o antes e o depois da chegada dos Jesuítas (em grande parte espanhóis) aos territórios ultramarinos portugueses na Índia, e o tipo de convivência entre Cristãos europeus, Cristãos de São Tomé e religiosos hindus locais nos dois referidos períodos.

A obra debruça-se também sobre o período do governo de D. João de Castro (1548), fundador espiritual dos Capuchos de Sintra, coincidente aliás com a acção na Índia daquele que foi o grande iniciar de um tipo de perseguição destruidora e estruturada dos católicos romanos europeus relativamente ás demais confissões religiosas fixadas nos territórios indianos sob controlo português, o jesuíta espanhol "São" Francisco Xavier.


S. Francisco Xavier em Goa. Pintura de André Reinoso.
Igreja de S.Roque, Lisboa.

É conhecida a relação conturbada que entre os governadores e vice-Reis portugueses relativamente aos religiosos da Contra-Reforma. Uma carta, que mais tarde procurarei transcrever, dirigida por D. João ao filho D. Álvaro dá nota do descontentamento do nobre português face ao comportamento - muito pouco católico - dos religiosos que se "orientavam" no Oriente português.

quinta-feira, 12 de março de 2009

"A Serra de Cintra" (1814), por Ricardo Raimundo Nogueira

O poema "A Serra de Cintra", da autoria de Ricardo Raimundo Nogueira (1746-1827) é uma composição de rara beleza dedicada a Sintra e ao seu património natural e edificado.

Composto de 70 estrofes de 6 versos (sextilhas), o autor dedicado ao Convento três: as estrofes 12, 13 e 14, nas quais se refere ao ermo local em que se construiu o cenóbio, à lenda da fundação (na versão do sonho de D. João de Castro) e ao padroado dos Castros da Penha Verde.

12
Vê agora sem arte e sem estudo
Sem planta, medição, engenho, e risco
A Caza de Francisco,
O recinto, o portal, a Igreja, e tudo
Duros penedos são aprovesitados
Alli pela mão próvida espalhados.

13
O forte insigne Castro o vio em mente
N'um dia andando á caça n'estas brenhas
Huma Cruz sobre as penhas,
Diviza, observa, e adora promptamente,
Sentio-se penetrado, e commovido,
Assim foi o Convento concebido.

14
O seu Filho D. Alvaro de Castro
Heróe, filho de Heróe, nobre, e devoto
Cumprio, e deo com o voto
Aos Campos nova luz, á Serra hum Astro;
Ainda o Successor he Padroeiro,
Dos bens não só, mas da Piedade Herdeiro.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Sobre as notas biográficas de João de Castro, neto do 4º Vice-Rei da Índia

De Sebastianismo temos falado aqui, no SOS Capuchos, avulso e sempre que o tema se justifica. Ora, é a ele que regressamos, para abordar ao de leve a figura de um João de Castro, que não o 4º Vice Rei da Índia, mas antes um seu neto, filho bastardo de D. Álvaro de Castro, e nome maior da defesa do célebre Cavaleiro da Cruz, que acreditava ser de facto o Rei desaparecido D.Sebastião.

Vale a pena ler a biografia deste João de Castro, que viveu na infância com a sua avó D. Leonor Coutinho, até ingressar ainda menino no Mosteiro de Nossa Senhora da Penha Longa (Jerónimo), no sopé da Serra de Sintra.

Ali conheceu um seu companheiro de viagem, "moço honrado de Sintra" e filho de um mestre de obras local conhecido do Cardeal Rei D. Henrique (monarca português ligado à história do Convento), com quem fugiu - pela calada da noite - da Penha Longa, em busca de aventura e outro sentido para a vida. Chamava-se Manuel Carreira.

D. João de Castro (neto) conta-nos nas suas notas autobiográficas que com o seu amigo do tempo da "Pera-Longa" viajou até Évora, ali se fazendo estudante na Universidade local. O neto do Vice-Rei viveu durante alguns anos da misericórdia e esmola alheia, sendo por mais de uma vez referido por si um estudante africano, negro, de seu nome João Pinto ("homem preto, natural do Congo, ou de Angola").

A vida deste descendente do fundador-espiritual do Convento não se cruza, pelo menos que disso eu tenha conhecimento, com os Capuchos de Sintra... Mas no texto que felizmente nos deixou acerca da sua vida meio-vagabunda refere que Manuel Carreira o deixou em Évora, regressando para a casa de seu pai (em Sintra, como já referi), para tomar o hábito franciscano:

"(...) determinou meu companheiro de se tornar para casa de seu pai, como fez, metendo-se ao diante Capucho, ou Descalço (nde: carmelita, portanto), como desejava; de que não sei mais.".

Pergunto-me se Manuel Carreira, que desejava muito ser Capucho como refere João de Castro no início do texto, não teria feito o seu noviciado precisamente no Conventinho de Santa Cruz, já que esta é a única casa franciscana do termo de Sintra. Não conheço nenhum registo nem disponho de informação que o confirme.

É de facto uma pena que a documentação relativa à vida do Convento, incluindo os registos da e sobre a Comunidade que entre 1560 e 1834 ali viveu, esteja desaparecida e muito provavelmente arrumada na estante ou cofre de algum particular. Trata-se de documentação de relevante interesse público, na esfera do estudo do lugar em si e da particular vivência do franciscanismo ali praticada.

terça-feira, 3 de março de 2009

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

509 anos sobre o nascimento de D. João de Castro

Passam hoje 509 anos sobre o nascimento daquele que foi o idealizador e o fundador espiritual do Convento dos Capuchos, o 4º Vice-Rei da Índia D. João de Castro.

De facto, foi cumprindo uma vontade sua, curiosamente não expressa no seu testamento, que o filho D. Álvaro de Castro edificou, 12 anos após a morte do pai, o Conventinho de Santa Cruz da Serra de Sintra, precisamente no local onde - de acordo com a tradição - D. João de Castro havia adormecido, e em sonhos recebido a missão de ali construir uma Casa de recolhimento para uma comunidade religiosa.

"Deus quer, o homem sonha, a obra nasce".

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Francisco Caldeira Cabral sobre os Capuchos e a Penha Verde

"Se em todos os aspectos citados até aqui o jardim português se mantêm atrasado em relação aos dos outros povos da Europa, há pelo menos um, em que me parece ter-se-lhe adiantado de bem dois séculos. Refiro-me à concepção naturalista de muitas obras nossas do século XVI, como a Penha Verde e os Capuchos. Nunca mais, e em parte nenhuma se conseguiu um equilíbrio tão perfeito e uma unidade tão completa entre a obra do homem e a da natureza, não como desde o século passado rebaixando o homem ao plano simplesmente natural, mas sim elevando ambos, Natureza e Homem, ao plano divino da criação dentro do conceito católico e franciscano. Não pretendíamos imitar artificiosamente a natureza, mas apenas integrar com raro instinto, na nossa obra, as belezas naturais que encontrámos, fossem elas uma fraga, um velho carvalho ou um vasto panorama. É de notar a preocupação que tivemos de edificar as nossas casas e situar os seus jardins em locais com boa vista, - o que não é para admirar num povo que sempre viveu nas alturas e que quase ignora o que seja a planície.

Foi talvez por este amor da natureza, que o jardim era entre nós a continuação da casa ao ar livre e estava em imediata ligação com ela, o que o desenvolvimento da casa em planta e não em altura facilitava. Quase sempre pelo menos um pequeno terraço se encontrava ao nível do andar de habitação, e as árvores dos nossos jardins emolduram e aconchegam as casas portuguesas."

Texto completo aqui.

Francisco Caldeira Cabral
Fundamentos da AP, pags 129 a 134.
Jardins de Portugal (em Panorama, n.º 15 e 16, Julho de 1943)
Características tradicionais do jardim português

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Apontamento histórico

«Entre ocupações de soldado, conservou virtudes de religioso; era frequente em visitar os templos, grande honrador dos ministros da Igreja, compassivo e liberal com os pobres; devotíssimo da Cruz, cujo sinal adorava com inclinação profunda sem diferença de lugar, ou tempo. E tão religiosamente ardia no culto deste sinal santíssimo; que quiz mais laurar templo à sua memória, que fundar casa a sua posteridade, deixando como em piedosa benção a seu filho Dom Álvaro, que se na graça, ou justiça dos Reys achasse alguma gratidão de seus serviços, do prémio delles edificasse na Serra de Sintra hum convento de Recoletos Franciscanos, advertindo, que com a invocação da Cruz se titulasse a Casa. Dom Álvaro de Castro que das virtudes de tão pyedoso pay, foi legítimo herdeiro, ordenou a fabrica do Convento, menos grande pella magestade do edificio, que pela santidade dos varoens penitentes, que o habitaõ. Sendo a primeira vez mandado pelo Senhor Rey D.Sebastião com embaixada ao Papa Pio IV. impetrou delle privilegiar o Altar do dito Convento para todas as Missas & para o dia da Invenção da Cruz, indulgencia plenaria a todos os que rogassem polas necessidades maiores da Igreja; & advertidamente pola alma de Dom João de Castro: graça tão singular & nova, que não vimos concedida a Principes soberanos.»

Em «Vida de Dom João de Castro, Quarto Visorey da Índia», por Jacinto Freire de Andrade (1597-1657)

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

O Rei da Ericeira e o Convento dos Capuchos

É sabido que os últimos dois monarcas portugueses da Dinastia de Aviz, descontado D. António Prior do Crato que não foi aclamado em Cortes, estiveram ligados à história do Convento dos Capuchos da Serra de Sintra. O Rei-Menino D. Sebastião era, segundo se diz, visita assídua dos franciscanos , e o Rei-Cardeal D.Henrique teve papel activo na ampliação do Convento, e passava períodos de reclusão numa cela contígua à capela do Senhor no Horto, erigida no Claustro do cenóbio, por sua ordem.

D. Sebastião ocultou-se deste mundo no Norte de África em 1578 e D.Henrique reinou apenas dois anos, até 1580 (4 de Agosto de 1578 a 31 de Janeiro de 1580). Seguiu-se um muitíssimo conturbado período da história de Portugal, com D. António Prior do Crato a reclamar o trono e a ser aclamado em Santarém, embora não pelas cortes, e com os espanhóis a invadirem Portugal, estabelecendo-se D.Filipe II de Habsburgo como rei de Portugal e dos Algarves, o primeiro da triste dinastia filipina que dominou o país até à restauração de 1640.

Os portugueses reagiram, e vários foram os episódios de resistência à dominação estrangeira, que aqui não cabem narrar. Importa todavia, porque se relaciona com o Convento de Sintra, abordar muito superficialmente a história de Mateus Álvares, chamado pelo povo o "Rei da Ericeira", um dos "falsos D. Sebastião" que apareceram dentro e fora do território nacional, nos anos seguintes à invasão espanhola.

O primeiro "falso D. Sebastião" foi o "Rei de Penamacor". Seguiu-se Mateus Álvares, depois o Pasteleiro do Madrigal e por fim o "Cavaleiro da Cruz", caso em que se envolveu de forma seríssima D. João de Castro, neto do Vice-Rei homónimo e filho bastardo de D. Álvaro de Castro, fundador do Convento dos Capuchos.

Mateus Álvares era natural dos Açores, sendo o seu pai um pedreiro de Vila da Praia, na Ilha Terceira. Emigrou para o continente, e aqui se estabeleceu como noviço no Convento de S. Miguel, no lugar das Gaeiras, junto a Óbidos. Dali saiu para Sintra, onde terá estado - de acordo com o historiador espanhol Herrera - durante alguns meses nos Capuchos, não aguentando todavia o rigor da vida conventual do Convento, por desconforto física e espiritual, ou simplesmente por vontade de não obedecer a regra nenhuma.

É precisamente após a sua saída dos Capuchos de Sintra - onde terá sido contemporâneo de Frei Agostinho da Cruz e de Frei Honório (falecido apenas em 1596), não sendo igualmente de descartar a hipótese de ali se ter cruzado com El-Rei D. Sebastião - que se estabelece como eremita na zona da Ericeira (São Julião).

Identificado por alguns locais como D. Sebastião, devido a parecenças físicas notáveis, Mateus Álvares vestiu a pele do monarca desaparecido, e apoiado por Pe(d)ro Afonso - um homem de Rio de Mouro - organizou a sua corte, com direito a raínha coroada e título nobilitários. Ali resistiu, e chegou a ter às suas ordens um pequeno exército de cerca de 800 homens, oriundos das terras do Oeste entre Torres Vedras e Sintra.

Assustados com as proporções que o caso ganhava, os espanhóis acabaram por esmagar militarmente o pequeno e "rústico" exército do Rei da Ericeira, punindo severamente - com a morte - os revoltosos e os seus líderes.

De acordo com a "Carta de Perdão Geral" de 1585, publicada no livro de Alberto Pimentel sobre este assunto, Mateus Álvares foi detido na Vila de Colares, no sopé da Serra de Sintra. Acabou executado e desmembrado na cidade de Lisboa, no já referido ano, tendo defendido até è morte o sebástico acto de que foi principal protagonista, afirmando que jamais havia querido enganar os portugueses, mas tão só libertá-los da dominação estrangeira, anunciado-se depois como impostor.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

"Aos cabellos da barba que D. Joaõ de Castro viso-rey da India empenhou á cidade de Goa"

Da obra "Varias rimas ao Bom Jesus e à Virgem Gloriosa Sua Mãi e a Santos Particulares, Lisboa, 1770 [L. 88462 P.]", de Diogo Bernardes, irmão de Frei Agostinho da Cruz - disponível no site da Biblioteca Nacional.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Heráldica dos Castro da Penha Verde

De acordo com a obra "Armorial Lusitano", de António Machado de Feria, são três as composições heráldicas associadas ao nome dos Castro. Assim, a primeiro distinção que normalmente se faz entre os vários ramos da família é entre "legítimos" e "ilegítimos", o que do ponto de vista das armas aparece diferenciado pelo número de arruelas, que são em número de 13 (3+3+3+3+1) no caso do ramo legítimo e 6 (2+2+2) no caso dos Castro "ilegítimos". Diferencia-se ainda na cor do fundo, pois se no primeiro caso ele é de ouro, no segundo é de prata.

A família da Penha Verde pertence precisamente a este segundo ramo, que por sua vez se subdivide novamente em dois. Do ponto de vista heráldico, os C
astro da Penha Verde ostentam um brasão semelhante aos outros Castro "ilegítimos", com a diferença a residir no "timbre", onde aparece nas garras do "leão de ouro" a roda de navalhas, instrumento do martírio de Santa Catarina de Alexandria, virgem e mártir, sua padroeira.

No interior do Convento dos Capuchos da Serra de Sintra (fundado em 1560 por sua vontade, cumprida por D.Álvaro de Castro, seu filho), mais precisamente na Igreja conventual, existe numa velha lápide de mármore, alusiva à fundação do Templo bem como aos Castro seus fundadores, uma representação das armas da família da Penha Verde. É curiosa esta variação da composição, pois o "leão de ouro" desaparece, ficando o escudo encimado por uma coroa e, sobre ela, a roda de navalhas de Santa Catarina.

Catarina, a virgem mártir de Alexandria e do Sinai, é aliás um elemento central na vida da família da Penha Verde, razão pela qual a roda do seu martírio se encontra patente em lugar de destaque no brasão. D.Álvaro, filho de D.João e fundador do Convento dos Capuchos - no cumprimento da vontade do seu pai - foi armado cavaleiro em Tur-Sinai (1541), não muito longe do monte sagrado da tradição judaíco-cristã para onde, segundo a tradição, o corpo da santa foi transportado por anjos (razão pela qual ali existe um mosteiro de Santa Catarina do Sinai).

A devoção dos Castro à sua padroeira resultou na edificação, dentro dos muros da sua Quinta em Sintra, de uma capela dedicada à santa (a terceira), localizada num monte com o seu nome (antigo Monte das Alvíssaras), qual Sinai sintrense. O sonho de Dom João para a sua Penha Verde - antiga Quinta da Fonte d'El Rei - apenas foi concretizado entre 1640 e 1651, quando D.Francisco de Castro, Bispo da Guarda e Inquisidor Mor, conclui as obras nos jardins, dando expressão prática aos desejos manifestados pelo Vice-Rei em carta ao seu intimo amigo, o Infante D.Luís: "encher estes picos da Serra de Sintra de Ermidas". ("Dom João de Castro e o Universalismo da Cultura Portuguesa, por Frederica Chichorro).

Outras pedras de armas semelhante à da Igreja do Convento dos Capuchos encontram-se na no portão principal da Quinta da Penha Verde e na Fonte d'El Rei, localizada muito perto do referido portão, na berma da estrada (ver imagem em cima).

Bibliografia:

Chichorro, F. (1996) - "D.João de Castro e o Universalismo da Cultura Portuguesa" (PDF)
Feria, António Machado - "Armorial Lusitano"