"Se em todos os aspectos citados até aqui o jardim português se mantêm atrasado em relação aos dos outros povos da Europa, há pelo menos um, em que me parece ter-se-lhe adiantado de bem dois séculos. Refiro-me à concepção naturalista de muitas obras nossas do século XVI, como a Penha Verde e os Capuchos. Nunca mais, e em parte nenhuma se conseguiu um equilíbrio tão perfeito e uma unidade tão completa entre a obra do homem e a da natureza, não como desde o século passado rebaixando o homem ao plano simplesmente natural, mas sim elevando ambos, Natureza e Homem, ao plano divino da criação dentro do conceito católico e franciscano. Não pretendíamos imitar artificiosamente a natureza, mas apenas integrar com raro instinto, na nossa obra, as belezas naturais que encontrámos, fossem elas uma fraga, um velho carvalho ou um vasto panorama. É de notar a preocupação que tivemos de edificar as nossas casas e situar os seus jardins em locais com boa vista, - o que não é para admirar num povo que sempre viveu nas alturas e que quase ignora o que seja a planície.
Foi talvez por este amor da natureza, que o jardim era entre nós a continuação da casa ao ar livre e estava em imediata ligação com ela, o que o desenvolvimento da casa em planta e não em altura facilitava. Quase sempre pelo menos um pequeno terraço se encontrava ao nível do andar de habitação, e as árvores dos nossos jardins emolduram e aconchegam as casas portuguesas."
Texto completo aqui.
Francisco Caldeira Cabral
Fundamentos da AP, pags 129 a 134.
Jardins de Portugal (em Panorama, n.º 15 e 16, Julho de 1943)
Características tradicionais do jardim português
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terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
Manifesto em prol de um Organismo com Alma que importa manter Viva
por José CARDIM RIBEIRO
Comissário da Paisagem Cultural de Sintra
Durante décadas os problemas relacionados com a recuperação de um monumento, de um centro histórico, mesmo de uma paisagem, resumiam-se essencialmente à optimização das técnicas interventivas, tendo em vista preservar a autenticidade do bem e, tanto quanto possível, conciliar, sob o ponto de vista da ciência dos materiais, os novos produtos empregues nos restauros com as estruturas originais. Tratava-se, pois, de um assunto eminentemente técnico, no âmbito da engenharia e do restauro, o qual – pesem embora várias diferenças de escola – não constitui hoje motivo de especial polémica, encontrando-se de há muito consensualizados os processos mais eficazes a aplicar.
Porém, desde há alguns anos que se vem a colocar uma outra dimensão do problema. Não já a do equilíbrio material do bem, mas sim a da manutenção das características ambientais próprias dos edifícios e dos lugares, características não apenas ditadas pela essência do próprio objecto, arquitectónico ou paisagístico, na sua originalidade, na sua autenticidade, mas também pelas múltiplas e imprevisíveis marcas da passagem do tempo.
Muitas vezes um visitante não é especialmente atraído pelo estilo de um edifício, pelo rigor urbanístico de um bairro, ou pela raridade de uma espécie vegetal,mas sim por factores aleatórios que, ao longo dos tempos, imprimiram a esses lugares um sabor particular, uma ambiência própria .
Trata-se agora, em última análise, de manter vivo o "génio do lugar" , dimensão sensorial que não é mensurável, nem muitas vezes facilmente explicável, mas que quase sempre constitui, afinal, um dos mais significativos sinais de distinção entre cada sítio, cada centro histórico, cada monumento – e, muitas vezes, o principal motivo de atracção que exerce junto dos visitantes.
A nossa época não se contenta com exactidões matemáticas, antes procura as insondáveis subtilezas inerentes ao subjectivo. Usufruir um sítio, contemplá-lo, não se faz só com o cérebro, mas também – e principalmente – com a alma.
Evidentemente que a reabilitação de um centro urbano, a recuperação de imóveis ou de jardins históricos, implicam necessariamente a utilização das técnicas credenciadas, a nível internacional, pela ciência e pela prática. Mas haverá também que saber conciliá-las com a intransigente protecção do "génio do lugar", sob pena de transformar um organismo vivo num simples corpo embalsamado.
Este é um desafio da actualidade, dos nossos tempos, da nossa geração. As soluções não são simples, nem universais, nem mesmo unânimes. Mas há que encarar de frente o problema, evitando sempre as respostas mais fáceis, as intervenções estandardizadas, os lugares-comuns.Cada bem patrimonial é um caso singular, e unicamente uma profunda meditação sobre a sua específica personalidade nos poderá conduzir ao caminho mais correcto .
Trata-se de evidenciar e preservar a componente imaterial que envolve um monumento, um centro histórico, uma paisagem, componente imaterial que muitas vezes se cristalizou no imaginário colectivo não só por directa acção das intrínsecas características ambientais de um objecto, de um local, mas também a partir
de determinada visão privilegiada a dada altura fixada num poema, num romance, num texto de viagem, numa tela, e que veio ulteriormente a condicionar não só o modo de olhar e de usufruir esse bem patrimonial, mas também a criar expectativas previamente construídas no imaginário dos potenciais visitantes.
Poetas como Lord Byron, escritores como Pierre Loti, ou os pintores orientalistas – entre tantos outros –, emprestam-nos os seus olhos para, através deles, contemplarmos a realidade. E tanto mais nos sentimos identificados com essa mesma realidade quanto a nossa própria observação coincida com os parâmetros culturais previamente adquiridos, acreditados – e tantas vezes sonhados.Pelo contrário, a inesperada dissonância causará perplexidade e incómodo. O sonho desfaz-se e a desilusão penetra profundamente o visitante. Algo morre dentro de si. Como morto – ou desvirtuado, ou subvertido – se encontrará já, porventura, o genius loci do objecto, do sítio em causa .
Como actuar, pois, para preservar, para manter viva essa componente imaterial, esse património intangível – a “alma” de um sítio?
Em primeiro lugar,torna-se imperioso compreendê-la, interiorizá-la, quer a nível dos seus traços preponderantes, quer quanto a outras diversas facetas mais obscuras e discretas que, no entanto, lhe matizam e melhor definem a sua personalidade própria .
Para tal importa não só analisar detalhadamente o bem patrimonial em causa, em todas as suas vertentes materiais, necessariamente solidárias e complementares, procedendo a uma minuciosa observação directa,procurando desvendar o real-imaginário que se esconde por detrás das aparências , meditando as produções literárias e artísticas eventualmente inspiradas por aquele objecto, por aquele local, sondando ainda as simples opiniões de quem comummente o usufrui e os consensos pouco a pouco assim estabelecidos.
Em última análise,deverá o futuro interventor deixar-se também ele penetrar pelo "espírito do lugar", esquecendo por instantes os seus saberes científicos e técnicos – e, mais ainda, as modas e tendências culturais do momento –, predispondo-se, tanto quanto possível, à apreensão de “sensações puras” .
Deverá também deixar passar algum tempo, amadurecer as ideias, as emoções, e agir sem pressas, imbuir-se do ritmo do próprio lugar e não se precipitar em função de pressões de mercado ou de calendarizações políticas. Uma acção impensada, inadequada e superficial, poderá prejudicar mais um bem patrimonial do que largas décadas de simples abandono; poderá fundamentalmente prejudicar, entenda-se, a sua componente imaterial, a sua dimensão sensível e vivencial.
Acreditamos que na recuperação e valorização de um monumento, de um centro histórico, de uma paisagem, o interventor revela a sua ciência, ponderação, maturidade e qualidade na ordem inversa da visibilidade das marcas que vier a deixar na realidade patrimonial e ambiental pré-existentes, perante o observador comum.
Em questões de património histórico e ambiental, à inteligência e ao saber ter-se-á necessariamente de aliar a humildade, a serenidade e a independência de pensamento.
Decerto que arquitectos, paisagistas e outros terão múltiplas ocasiões, ao longo das suas carreiras, de inovar, de mostrar a sua força criativa, de transmitir as suas mensagens personalizadas como artistas e como homens, de marcar o seu cunho na roda do tempo. Mas não – decididamente não – ao actuar sobre o legado patrimonial. Aqui, as intervenções deverão ser minimalistas e forçosamente condicionadas não só pelas especificidades materiais dos bens, mas ainda – e, arriscaríamos a dizer, principalmente – pelas suas especificidades ambientais, pelo seu genius loci.
Esta é fundamentalmente, como já referimos, uma preocupação da nossa época e, como tal, desde há alguns anos tem ocupado o centro das discussões nas principais sedes pensantes que se ocupam das questões do Património, da Cultura, do Ambiente e do Homem de forma interactiva – como a UNESCO.
E é uma preocupação da nossa época porque a preservação da dimensão imaterial de um objecto artístico, de um local histórico, se prende hoje com o próprio equilíbrio psíquico e afectivo do indivíduo e, em derradeira análise, da própria sociedade.
Vivemos num contexto cada vez mais permanente de não-lugares, de espaços indiferenciados e desumanizados; vivemos cada vez mais sob a pressão dos instantes que se escoam e não mais regressam, das horas e dos anos que passam céleres
e se esfumam como nuvens sopradas por um vento constante e implacável.
Os monumentos, os centros históricos, as paisagens, são algumas das principais âncoras que nos restam. Mas apenas se o sonho que sobre eles construímos não se desfizer; apenas se nós, interventores do Património, soubermos manter viva –
e mesmo, porventura, revivificar – a personalidade própria de cada sítio, a sua alma mater.
(Texto retirado deste website)
Comissário da Paisagem Cultural de Sintra
Durante décadas os problemas relacionados com a recuperação de um monumento, de um centro histórico, mesmo de uma paisagem, resumiam-se essencialmente à optimização das técnicas interventivas, tendo em vista preservar a autenticidade do bem e, tanto quanto possível, conciliar, sob o ponto de vista da ciência dos materiais, os novos produtos empregues nos restauros com as estruturas originais. Tratava-se, pois, de um assunto eminentemente técnico, no âmbito da engenharia e do restauro, o qual – pesem embora várias diferenças de escola – não constitui hoje motivo de especial polémica, encontrando-se de há muito consensualizados os processos mais eficazes a aplicar.
Muitas vezes um visitante não é especialmente atraído pelo estilo de um edifício, pelo rigor urbanístico de um bairro, ou pela raridade de uma espécie vegetal,
A nossa época não se contenta com exactidões matemáticas, antes procura as insondáveis subtilezas inerentes ao subjectivo. Usufruir um sítio, contemplá-lo, não se faz só com o cérebro, mas também – e principalmente – com a alma.
Evidentemente que a reabilitação de um centro urbano, a recuperação de imóveis ou de jardins históricos, implicam necessariamente a utilização das técnicas credenciadas, a nível internacional, pela ciência e pela prática. Mas haverá também que saber conciliá-las com a intransigente protecção do "génio do lugar", sob pena de transformar um organismo vivo num simples corpo embalsamado.
Este é um desafio da actualidade, dos nossos tempos, da nossa geração. As soluções não são simples, nem universais, nem mesmo unânimes. Mas há que encarar de frente o problema, evitando sempre as respostas mais fáceis, as intervenções estandardizadas, os lugares-comuns.
Trata-se de evidenciar e preservar a componente imaterial que envolve um monumento, um centro histórico, uma paisagem, componente imaterial que muitas vezes se cristalizou no imaginário colectivo não só por directa acção das intrínsecas características ambientais de um objecto, de um local, mas também a partir
de determinada visão privilegiada a dada altura fixada num poema, num romance, num texto de viagem, numa tela, e que veio ulteriormente a condicionar não só o modo de olhar e de usufruir esse bem patrimonial, mas também a criar expectativas previamente construídas no imaginário dos potenciais visitantes.
Poetas como Lord Byron, escritores como Pierre Loti, ou os pintores orientalistas – entre tantos outros –, emprestam-nos os seus olhos para, através deles, contemplarmos a realidade. E tanto mais nos sentimos identificados com essa mesma realidade quanto a nossa própria observação coincida com os parâmetros culturais previamente adquiridos, acreditados – e tantas vezes sonhados.
Como actuar, pois, para preservar, para manter viva essa componente imaterial, esse património intangível – a “alma” de um sítio?
Em primeiro lugar,
Para tal importa não só analisar detalhadamente o bem patrimonial em causa, em todas as suas vertentes materiais, necessariamente solidárias e complementares, procedendo a uma minuciosa observação directa,
Em última análise,
Deverá também deixar passar algum tempo, amadurecer as ideias, as emoções, e agir sem pressas, imbuir-se do ritmo do próprio lugar e não se precipitar em função de pressões de mercado ou de calendarizações políticas. Uma acção impensada, inadequada e superficial, poderá prejudicar mais um bem patrimonial do que largas décadas de simples abandono; poderá fundamentalmente prejudicar, entenda-se, a sua componente imaterial, a sua dimensão sensível e vivencial.
Acreditamos que na recuperação e valorização de um monumento, de um centro histórico, de uma paisagem, o interventor revela a sua ciência, ponderação, maturidade e qualidade na ordem inversa da visibilidade das marcas que vier a deixar na realidade patrimonial e ambiental pré-existentes, perante o observador comum.
Em questões de património histórico e ambiental, à inteligência e ao saber ter-se-á necessariamente de aliar a humildade, a serenidade e a independência de pensamento.
Decerto que arquitectos, paisagistas e outros terão múltiplas ocasiões, ao longo das suas carreiras, de inovar, de mostrar a sua força criativa, de transmitir as suas mensagens personalizadas como artistas e como homens, de marcar o seu cunho na roda do tempo. Mas não – decididamente não – ao actuar sobre o legado patrimonial. Aqui, as intervenções deverão ser minimalistas e forçosamente condicionadas não só pelas especificidades materiais dos bens, mas ainda – e, arriscaríamos a dizer, principalmente – pelas suas especificidades ambientais, pelo seu genius loci.
Esta é fundamentalmente, como já referimos, uma preocupação da nossa época e, como tal, desde há alguns anos tem ocupado o centro das discussões nas principais sedes pensantes que se ocupam das questões do Património, da Cultura, do Ambiente e do Homem de forma interactiva – como a UNESCO.
E é uma preocupação da nossa época porque a preservação da dimensão imaterial de um objecto artístico, de um local histórico, se prende hoje com o próprio equilíbrio psíquico e afectivo do indivíduo e, em derradeira análise, da própria sociedade.
Vivemos num contexto cada vez mais permanente de não-lugares, de espaços indiferenciados e desumanizados; vivemos cada vez mais sob a pressão dos instantes que se escoam e não mais regressam, das horas e dos anos que passam céleres
e se esfumam como nuvens sopradas por um vento constante e implacável.
Os monumentos, os centros históricos, as paisagens, são algumas das principais âncoras que nos restam. Mas apenas se o sonho que sobre eles construímos não se desfizer; apenas se nós, interventores do Património, soubermos manter viva –
e mesmo, porventura, revivificar – a personalidade própria de cada sítio, a sua alma mater.
(Texto retirado deste website)
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