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segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

O Convento dos Capuchos em "A Alma e a Gente"

Em 2010 o programa "A Alma e a Gente" visitou Sintra. Uma pequena parte do programa passa-se na Serra de Sintra e, em particular, no Convento dos Capuchos.


É curiosa a abordagem à lenda de Frei Honório, que nada tem que ver com "crueldade". A lenda tem várias versões, várias abordagens, e não deve ser entendida em sentido absolutamente literal.

(o Convento à passagem dos 5 minutos do vídeo em cima)

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Arquiteturas franciscanas

É com grande satisfação que reactivo este "SOS Capuchos" (que não perdeu um pingo da sua actualidade desde que há algum tempo atrás deixou de conhecer actividade regular) com a publicação de um artigo científico da autoria da investigadora Susana Matos Abreu, intitulado "Arquiteturas franciscanas das Origens na Mais Estrita Observância portuguesa do século XVI: a lição de Vitrúvio".

O artigo, que tem referências abundantes aos Capuchos de Sintra e ao seu convento, pode ser lido na íntegra aqui.


segunda-feira, 3 de maio de 2010

450 anos do início da construção dos Capuchos de Sintra

Passam hoje 450 anos sobre o início das obras de construção do Convento.
Ler mais sobre o assunto aqui.

domingo, 17 de janeiro de 2010

O marco viário de Sintra (1999)


(clique sobre a imagem para ampliar)

Mais sobre o marco viário da Estrada de Monserrate, aqui.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

O convento, em 1789

"Os lobos e as raposas, que habitavam as grutas e cavernas desses cumes, foram de um deles desalojados por um grupos de novos habitantes, que, tirando os assuntos de religião, têm relativamente às bestas selvagens a vantagem da humanidade; refiro-me a um grupos de frades, que consagraram as covas abandonados, e ali fizeram morada. Jantámos com eles junto ao portão do seu tosco e invisível convento, e fomos tratados com grande hospitalidade."

Por W. Allen, "The Edinburgh Magazine" (Julho de 1789).

Recordações do anno de 1842", pelo Príncipe Lichnowsky

"Os arredores de Cintra têm sido muitas vezes descriptos e decantados; limitar-me-hei a dizer que empreguei alguns dias em visitar Collares, os seus jardins, e vinhas, as modernas ruínas do palácio de Monserrate, e o celebre convento de cortiça*, que D.João de Castro o grande vice-rei da India edificou** em 1560 entre os mais elevados pincaros da serra, e que quatro annos depois recebeu do Papa Pio IV alguns privilegios, que ainda so vêem esculpidos em pedra na ermida. Este pobre mosteiro*** entalhado na rocha , e cujas paredes são forradas de cortiça para evitar a humidade é obra digna do seu fundador o piedoso, e pobre heroe que á hora da morte disse ao seu amigo, S.Francisco Xavier****: «O vice-rei da India morre tão pobre que não tem dinheiro para pagar uma galinha»".

Em "Portugal. Recordações do anno de 1842", pelo Príncipe Lichnowsky.

Notas:

* O autor - ou do seu tradutor - emprega de facto o termo "convento de cortiça" e não "da cortiça".
** Na realidade quando o Convento foi erigido já o vice-rei havia falecido na Índia. A fundação do Convento ficou pois a cargo de D.Álvaro, seu filho, que realizou a obra, por vontade de D.João.
*** Trata-se na realidade de um Convento e não de um Mosteiro.
**** Sobre as relações de "amizade" entre os vice-reis portugueses e os jesuítas enviados pela Contra-Reforma para a Índia, sugiro a leitura de "O papel da Igreja Católica na Índia (1498-1640)", de Fernanda Durão Ferreira (Hugin).

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Apothegmas Memoraveis. Livro III



"A Rainha D.Catharina indo ver o Convento dos Capuchinhos da Serra de Cintra, que he edificado em hum penhasco, chamou aos Religiosos delle Ratones del Cielo".

Apothegmas Memoraveis. Livro III (1761), pág. 297.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Frei Carlos da Conceição, "herói acidental"

Lisboa, 21.03.1819

Havia 24 para 25 anos (desde 24 de Agosto de 1794) que esta capital não gozava do magnífico espectáculo de uma viagem aerostática, que é sem dúvida um dos mais maravilhosos efeitos dos progressos das ciências nos últimos tempos, quando no dia 14 do corrente Março se viu renovado este esplêndido divertimento de um modo o mais brilhante que neste género se tem visto.

Tendo há tempos Mr. Robertson, bem conhecido na Europa por seus conhecimentos práticos de Física experimental, chegado de França com seu filho, mancebo de coisa de 20 anos, a esta capital, e tendo pedido e alcançado licença para fazer uma ascensão aerostática, aumentando com esta o número de muitas que tem feito em diversos países, designou executá-la a 28 de Fevereiro; mas não o permitindo o tempo chuvoso, ficou transferida para o dia de domingo 14 de Março, o qual amanheceu com todo o brilho que neste delicioso clima se goza em tempo de estio, e particularmente na Primavera.

Era o sitio destinado para esta operação a formosa Quinta da Excelentíssima Condessa de Anadia, a S. João dos Bem Casados, que S. Exa. generosamente se dignou prestar a Mr. Robertson para este fim, e cuja situação elevada oferecia um excelente ponto para a partida do aeronauta, desfrutando-se esta ao mesmo tempo de diversos lugares eminentes. Em uma área espaçosa desta Quinta se tinham destinado lugares de primeira e segunda ordem para um avultado número de subscritores que desejavam presencear de perto à operação de encher a máquina, para cujo fim estabeleceu no centro o hábil físico um aparelho pneumato-químico formado de 14 tonéis, de 8 dos quais só precisou extrair o gás, começando a trabalhar das nove e meia para as dez horas da manhã. Por volta da uma hora encheu o dito Professor um globozinho, que tinha as armas reais, e o levou à Excelentíssima Condessa de Anadia para S. Exa. se dignar de o soltar, e elevando-se ao ar, tomou a direcção do Noroeste, o que deu a conhecer aos espectadores qual deveria ser o rumo que seguiria o aeronauta, cujo balão grande, de 21 pés de diâmetro, já então estava cheio e pronto a partir. Para entreter porém mais os espectadores até à partida do seu balão, lançou Mr. Robertson mais alguns pequenos aeróstatos, tendo o último o feitio de um avultado peixe. Tocavam de vez em quando os músicos da Guarda real da Polícia, que se achavam no recinto, lindas sonatas, que animavam mais o vivo interesse que se divisava naquela conspícua assembleia.

Esperava o público que seria Mr. Robertson, pai, o que subiria aos ares, e tal fora sempre a geral expectação, quando seu filho, o mancebo Robertson, desejando segui-lo nesta carreira, testemunha da maior parte das ascensões aéreas de seu pai, e tendo já subido com ele aos ares em Viena, instou lhe concedesse datar deste dia, e em tão brilhante ajuntamento a época da sua primeira ascensão aerostática em que fosse ele só. Tendo o pai anuído aos seus rogos, e certo de que se achava capaz de bem desempenhar esta arriscada empresa, entrou na barquinha o mancebo Robertson pelas duas horas e um quarto, e elevando-se um pouco a máquina, ainda preza por algumas guias, girou em torno da assembleia que ocupava o recinto, espalhando por cima dos espectadores vários papéis de versos análogos ao espectáculo. Baixou depois disto, e marcando os grãos do termómetro e do barómetro que levava, e as horas do seu relógio, se elevou pelas duas horas e três quartos, e na altura de coisa de 15 braças, lançando abaixo a bandeira, e descobrindo-se, bradou três vezes Viva El Rei, ao que respondeu o imenso concurso dos circunstantes. Foi-se o globo entre vivas e aplausos elevando majestosamente com grande serenidade, e quase perpendicularmente por grande espaço, indo entretanto o aeronauta deitando, até já ir em grande altura, mãos cheias de papéis de várias poesias impressas para esse fim.

Um quarto de hora depois da partida, vendo o aeronauta debaixo de seus pés uma bela povoação (que era Benfica), abriu a válvula do balão para descer, e falando, apartado do chão a altura das casas, com o povo que ali se apinhara, espalhou alguns papéis, e aliviando de algum lastro a barquinha, bradando Viva El Rei, tornou a elevar-se a maior altura, calculada em três quartos de légua nesta segunda subida, na qual, muito mais alta que a primeira, deu o jovem físico grande prova de sua intrepidez e talento.

Vendo-se já quase iminente ao mar, abriu de novo o registo do balão para subir o gás, e foi descendo contrariado pelo vento, chegando a terra pelas 4 horas e meia, num campo lavrado perto do sitio de Galamares (meia légua ao poente de Sintra), onde lhe prestou o mais oportuno auxílio para subjugar o balão o R.P. Fr. Carlos da Conceição, dos Capuchinhos da Serra. Os habitantes do campo correram também a qual mais desvelado o havia de ajudar, e foi conduzido o intrépido aeronauta como em triunfo a Sintra entre clamores de júbilo, e não se farta de expressar quanto o seu coração se acha penhorado pelo obséquio que ali de todos recebeu.

Se quiséssemos pintar com expressões o lindo quadro do brilhante espectáculo deste dia, ou elas nos faltarão, ou quando pudéssemos vencer esta dificuldade, seria julgada hiperbólica a sua descrição pelos que o não viram, e inútil pelos que o gozaram, pois sempre a sua vista lhes deixara muito mais viva impressão. Figurem-se pois os que não presenciaram este espectáculo, o mais formoso dia, e o mais sereno, uma reunião de não menos de 50% habitantes desta capital em todos os sítios próximos ao do lugar da ascensão, e neste lugar a maior parte da fidalguia, alguns dos Excelentíssimos membros do governo, o excelentíssimo Marechal General, e outros Generais do Exército, enfim, um sem número de pessoas nacionais e estrangeiras de diversas hierarquias, brilhando com o maior gosto, riqueza, e primor os enfeites e adornos da mais luzida assembleia que se hajam talvez jamais visto do belo sexo; e sobre tudo dito, a belíssima ordem e sucesso que houve, as acertadas medidas tomadas pela Polícia, cuja Real Guarda ali se postou, e nos lugares mais convenientes, para a expedição do inumerável concurso das carruagens, que cobriam as estradas daqueles contornos; e assim se terá uma ideia aproximada, mas muito débil, da grata sensação que deixou nos ânimos dos que viram este lindíssimo espectáculo. Só uma circunstância a podia fazer mais completa nos corações portugueses; o leitor a conhecerá no fim do penúltimo verso do seguinte soneto, que, como os outros versos que o aeronauta espalhou, passamos a transcrever por satisfazermos a vontade do público que os deseja ler.(...).

(Em casa de Mr. Robertson se há de achar brevemente impressa a Relação desta Viagem, com os cálculos que por esta ocasião se fizeram).

(Gazeta de Lisboa n.º 69, 22.03.1819).

Post integralmente retirado do Blogue De Rerum Natura.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

O Convento na publicação "Jardim Litterario" (1848)

Ilustração do pátio fronteiro ao alpendre da Portaria.
(Clique sobre a imagem para ampliar)

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Uma testemunha vida do grande incêndio de 1966

Em Setembro de 1966 a Serra de Sintra foi parcialmente consumida pelo fogo. Um grande incêndio com origem na zona da Lagoa Azul/Penha Longa subiu aos píncaros da Serra, e através da zona de Vale-Flor atingiu a Tapada do Mouco e mais a ocidente o Convento dos Capuchos.

O Conventinho esteve cercado pelas chamas, mas acabou por ser poupado a uma destruição certa. O esforço humano teve nesta salvação do Convento grande importância, e nunca será de mais prestar homenagem aos homens e mulheres que tudo deram de si - incluíndo a vida - para proteger o que é de todos: o património natural e edificado da Serra de Sintra.

Diz quem lá esteve que as chamas chegaram a escassos metros do Convento, e que o famoso plátano do Terreiro das Cruzes viu alguns dos seus ramos mais longos chamuscados pelo fogo. Todavia, a principal testemunha viva dos acontecimentos de Setembro de 1966 nos Capuchos é a enorme Sequóia que se ergue dentro da cerca do Convento, não muito longe da Capelinha do Ecce Homo, ou de São Sebastião, a caminho da porta de pedra da zona mais alta intramuros.

Trata-se de uma árvore notável, uma das últimas Sequóias do Convento. Quem a observar de perto, contornando-a, verificará que na sua base ainda se encontram impressas na madeira as marcas do fogo devastador.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Frei Tomé de Torres Vedras

Se Frei Belchior de Alderete foi vítima da Peste de 1579-1580, Frei Tomé (ou Thomé) de Torres Vedras padeceu naquela a que chamaram "Grande", e que entre 1569 e 1570 ceifou apenas na cidade de Lisboa cerca de 60.000 vidas (1).

Dois documentos referem a sua vida, mas para já tratarei apenas de um deles: o Agiológio Lusitano.

Sobre Frei Tomé se sabe que nasceu em Torres Vedras, e que em Sintra era frade franciscano arrábido. Na Serra viveu uma vida muito santa, dizendo-se que da sua boca "nunca saïo palavra ociosa". Praticava pois o silêncio na sua mais alta significação, aquela tão bem definida por Denis Labouré no seu "Alquimia Cristã": "A tradição prescreve o silêncio, mas seria errado ver aí um verdadeiro voto de silêncio. Calar-se quer dizer falar dentro de limites bem definidos. O homem deve dizer o que deve, quando o deve e a quem deve".

Por tanto de dedicar aos "apestados" da Vila de Sintra viu-se ferido por esta enfermidade, e veio a falecer no dia 27 de Janeiro de 1570.

Segundo o Agiológio Lusitano, as últimas palavras que proferiu ao Companheiro que o assistia foram as seguintes: "Meu senhor Iesu Christo, a quem servi, me fez particular favor de me apparecer crucificado, & com tam estreitos nós de amor atou minha alma com sua divindade, que nem as dores, que padeço, nem todas as do mundo me poderaõ apartar hum ponto delle".

Brevemente tratarei daquilo que sobre Frei Tomé se escreve na Crónica da Arrábida.

Notas:

(1) - "A peste, que nunca antes existira na Península Ibérica, voltou a Portugal várias vezes até ao fim do século XVII, ou seja sempre que nasciam suficientes novos hóspedes não imunes. Nenhuma foi nem remotamente tão devastadora como a primeira (1348), mas a Grande Peste de Lisboa em 1569 terá matado 600 pessoas por dia, ao todo 60000 habitantes da cidade terão sucumbido. A última grande epidemia foi em 1650" - da Wikipedia.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Frei Belchior de Alderete

Quando no final da década de 70 do século XVI a peste começou a dizimar vidas na zona de Lisboa e arredores, um frade arrábido castelhano que integrava a comunidade de Sintra acorreu em auxílio à população de Torres Vedras, e naquela antiga e importante vila protagonizou um milagre de que dão conta a Crónica da Arrábida (Tomo I) e o Agiológio Lusitano (Tomo II).

O seu nome era Frei Belchior de Alderete, um homem de "compleiçaõ fraqua, & forças limitadas", que fez da sua fé um instrumento de Deus ao serviço dos homens.

Frei Belchior morreu a 12 de Abril de 1579, e encontrou a sua última morada na Ermida de São João de Torres Vedras, a qual hoje se encontra incluída no Cemitério de São João que serve a cidade torreense.

Dele se diz ter salvo muitas vidas quando desesperados pelos efeitos da peste, alguns de Torres Vedras se voltaram para este Santo Padre. A todos pediu paciência, "porque elle só pagaria por todos". A promessa foi cumprida, já que Frei Belchior acabou por falecer, ao passo que "todos os mais feridos convaleceraõ, e trunfaraõ do pestifero castigo, publicando deverem este beneficio aos merecimentos deste fiel, e amado Servo de Deos".

sábado, 28 de março de 2009

Sobre o Hábito e Calçado dos Arrábidos

Mas os outros frades que prometeram obediência tenham uma túnica com capuz e outra sem capuz, se for necessário, e o cíngulo e as bragas. E todos os frades vistam-se de roupas vis e possam remendá-las com sacos e outros retalhos com a bênção de Deus, porque diz o Senhor no evangelho: "Os que estão em vestes preciosas também estão em delícias" (Lc 7,25) e "os que se vestem de moles estão nas casas dos reis" (Mt 11,8)."

Da Regra não-bulada da Ordem de São Francisco.

Um dos elementos identificativos e mais simbolicamente explícitos dos franciscanos era o seu hábito. Os hábitos franciscanos eram o mais visível dos elementos simbólicos transportados pelos frades, sendo denunciadores da "santa pobreza, vileza e desprezo do mundo" característica da ideia e devoção original da Ordem, e mais tarde de algumas das suas diversas matizes.

O Estatuto da Provincia da Arrabida, de 1693, contém obviamente um capítulo inteiramente dedicado a este tema (Capítulo XXV - Dos Habitos & Calçado), o qual refere alguns aspectos bem interessantes relacionados com o código de vestuário dos frades.

Começa por distinguir o frades saudáveis daqueles que estejam enfermos, permitindo a estes últimos confortos adicionais, o que é comum a outros aspectos desenvolvidos nos Estatutos, acrescentando logo em seguida que se permitirá aos frades manterem os seus hábitos remendados com recurso a panos grossos de sacos, portanto incómodos e em jeito de penitência e louvor da santa pobreza evangélica.

(Para aceder à fonte da imagem clique aqui)

A propósito, é interessante notar que este costume - originário da necessidade de ir mantendo o hábito em condições de ser usado - resultava em trajes multicoloridos, mais tarde proibidos por uma revisão das disposições estatutárias da Ordem. Lendo o capítulo dedicado a Fr. Honório de Santa Maria, contido na Crónica da Província, verificamos que de facto assim era: "Para mayor lustre da sua observancia, naõ tinha cousa alguma do seu uso, mais que o Habito, taõ vil, como composto de pedaços de varias cores, taõ estreito, que mal o podia vestir, e taõ curto, que apenas lhe chegava aos artelhos dos pés, e pulsos dos braços".

A cada frade eram concedidos "dous pannos menores", que deveriam atacar à cintura com uma corda de "cayro grossa, como costume da provincia". Os panos deveriam acompanhar todo o corpo, e ficar - no comprimento - a um ou dois dedos do chão. De roda deveriam ter nove a dez palmos, salvo no caso dos frades "mais corpulentos". Mandava também o estatuto que os capelos - cozidos ao hábito - tivessem a forma daqueles que usavem os Capuchos italianos. Usavam também mantos cingidos ao corpo.

A mudança de Hábito - ou seja, o pedido de um novo pano - carecia de autorização do Prelado.

No que ao calçado diz respeito, é sabido que os arrábidos deveriam observar com rigor o costume de andarem descalços, mas poderia o Irmão Ministro autorizar mediante licença in scriptis que determinado frade usasse sandálias. Sabe-se todavia que no Convento de Sintra havia quem usasse sandálias nos seus percursos externos à cerca (ex. Frei Cristovão de São José) e havia também quem fosse do Convento à Vila sem nada a proteger a pele dos pés (ex. Frei Miguel Falcão, que certo dia sofreu por esse facto uma profunda ferida num dos pés).

Nos dormitórios não se podia andar calçado, sob pena de disciplina, mas esta lei não se aplicava aos doentes ou a outros casos de necessidade.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Frei Cristovão de S. José e o túmulo dos Capuchos

Um dos veneráveis Padres que passou pelo Convento dos Capuchos de Sintra, e que ali encontrou a sua última morada, foi Frei Cristovão de São José, natural da cidade de Lisboa, "vulgarmente chamado o Biltre" (epíteto pouco próprio de um franciscano arrábido "servo de Deus").

Frei Cristovão teve uma vida cheia de episódios notáveis, viajou muito (esteve na Terra Santa, em Itália - com passagem por Roma -, França e Castela) e chegou a passar pelo cárcere, antes de rumar a Sintra, onde se internou como recoleto frade do cenóbio da Serra.

Não sei ao certo em que ano nasceu, nem aquele em que morreu, mas sei que foi contemporâneo de Caetano de Melo e Castro, 36º Vice-Rei da Índia, nascido em 1680 e falecido em 1718. Assim, diria que o episódio a que aqui aludo - o da sua morte e transladação para Sintra - se terá passado já no século XVIII.

Frei Cristovão viveu na Arrábida, e dali passou para Sintra ("Relicário de toda a Ordem Seráfica pela sua pequenez, e suma pobreza..."), onde esteve pelo período de 30 anos. Diz a Crónica da Provincia que ali viveu na cela mais escura, mais húmida e mais incómoda de todas, já que a sua mediana estatura não lhe permitia sequer estender-se nela. Na Casa de Sintra todos "lhe davam venerações de Santo".

Na maior parte dos 30 anos que viveu no Convento de Santa Cruz assumiu a função de Porteiro, contactando assim frequentemente com todos aqueles que ao cenóbio se dirigiam, em particular os pobres que ali iam buscar a sua esmola.

Exemplar no cumprimento dos estatutos da Provincia, tinha como coisas do seu uso (usus pauper) apenas uma cruz de pau que guardava na cela, dois panos menores ("que conservava há anos a poder de remendos") e dois lenços. Interessante notar que de acordo com a crónica fumava, mas não à vista dos seculares. Outros textos, posteriores a este de 1737, referem outros frades fumadores do Convento, e até um guarda meio-ermitão que já depois de 1834 ali morava, de seu nome António.

Conta a Crónica que certa vez se dirigiu ao Rei D. Pedro II - que reinou na viragem dos séculos XVII para XVIII -, a quem procurou em Alcântara, na Igreja de Nossa Senhora das Necessidades, e que o monarca atendeu o seu pedido, já que "venerava sua majestade muito ao servo de Deus pelo conceito que tinha da sua virtude...".

O mesmo texto fala de um episódio da vida de Frei Cristovão, que aconteceu no regresso de uma ida a Colares, onde havia estado com um Companheiro. Espesso nevoeiro abateu-se sobre a Serra, e os dois franciscanos acabaram por se separar, chegando o Companheiro ao Convento, ao passo que Frei Cristovão apenas no dia seguinte chegaria, sem manto nem sandálias, razão pela qual foi mandado fazer disciplina pelo Prelado.

Frei Cristovão contou depois de havia passado a noite caminhando pelos matos da Serra, não dando com o Convento apesar do Guardião ter mandado que se picasse o sino. O alforge, seu manto bem como as sandálias chegariam ao Convento dias mais tarde, depois de encontrados pela Serra por pastores.

Com perto de 80 anos de idade, doente e com a percepção de que se aproximava a hora de morrer, Frei Cristovão ocultou aos irmãos a sua "última enfermidade", mas o Guardião acabou por ter dela conhecimento, ordenando que partisse para Lisboa, onde eram tratados os frades de Sintra que adoeciam.

No caminho para Lisboa parou na Quinta do já referido Caetano de Melo e Castro (seria a de Monserrate?), e ali foi "recebido e tratado com grande amor". Vendo que a vida o deixava, Frei Cristovão pediu a uma cunhada do Vice-Rei que chamasse o seu Guardião, para lhe dar a extrema unção, e passou a noite na capela da Quinta, na companhia do Capelão da Casa.

No amanhecer seguinte chegou à Quinta do Guardião de Sintra, e ali disse Missa. A pedido de Frei Cristovão, deu-lhe a extrema unção, e depois rezou-se o Ofício da Agonia, ao qual ia respondendo. As suas últimas palavras foram "In Manus tuas, Domine, commendo Spiritum meum", precisamente as últimas sete palavras d'O Cristo antes da sua morte na Cruz (Lucas 23:46, "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito"). Eram cerca das onze horas da manhã.

Pelas três iniciaram-se os trabalhos de transladação para o Convento, e quando o Guardião lhe pegou encontrou o corpo de Frei Cristovão tão flexível que parecia ainda animado de vida. Diz também a crónica que, achando-se sozinhas na presença do corpo, as criadas da Casa o picaram, e o sangue que saiu era tão líquido que com ele banharam lenços e paninhos, "que guardaram com estimação de preciosas relíquias". O corpo foi muitos acompanhado até ao Conventinho, onde se encontra a sua sepultura, localizada no Alpendre da Portaria, sendo um dos dois que se encontram junto à porta da Igreja conventual.

terça-feira, 24 de março de 2009

O Convento por Soror Violante do Céu (1601-1693)

Sem notas nem extensa introdução, aqui deixo em jeito de partilha - a verdadeira vocação deste Blog dedicado ao Conventinho - uma bonita "canção" de Soror Violante do Céu (1601-1693), freira dominicana que escreveu sobre a Casa franciscana da Santa Cruz de Sintra, a propósito de um "corisco" que na Cerca partiu uma Cruz, sem fazer vítimas entre a comunidade de religiosos arrábidos.

Porque este singular e belíssimo poema fala por si, aqui fica a transcrição:

"Si minha penna fôra
Das azas de algum Anjo produzida,
Tanto vôara agora,
Que da Arvore que o foi da melhor vida,
Applaudira o valor com canto excelso,
Como anhela a razão, pede o sucesso.

Mas supposto que seja
Indigna minha penna de tal gloria,
Quero que o Mundo vêja
A nova Redempção, nova victoria,
Que obrou, que conseguio a Cruz divina
Na Casa singular, que patrocina.

Naquella altiva Serera,
Que em Cintra desafia o Firmamento,
Hum breve Ceo na Terra
Ostenta a Santidade de hum Convento,
Tão raro na virtude, e Santidade,
Como raro tambem na brevidade.

He o titulo delle
Sancta Cruz, porque á Cruz he dedicado,
Que assiste sempre nelle
Pois no mesmo Sacrario collocado
Tem aquelle ditoso, e Sancto Lenho,
Que foi das nossas almas desempenho.

Na breve cerca deste
Epilogo de excessos portentosos,
Quiz o pendão celeste
Obrar tambem excessos amorosos
Pois da balla terrivel de hum corisco
Quiz que fosse só seu o alheio risco.

Porque dando temores
A todo o claro globo huma tormenta,
Que em raios, e esplendores,
Falsificou cruel a alma violenta,
Abortou o vapor que congelado
Ficou em pedra dura transformado.

Não dirigio o tiro
A' soberba da Serra levantada,
Senão ao bom retiro
De hum logar que na cerca limitada,
Serve, por solitario, de deserto,
Aos que vam contemplar no amor mais certo.

E sendo frequentado
De hum, e outro Capucho venturoso,
Logar tão retirado
Principio do Successo milagroso,
Foi não estar nenhum naquella hora
Aonde cada qual contempla, e ora.

Com barbara ousadia
Ao pé da Arvore excelsa cahio logo
A pedra, que trazia
Contra toda a defensa armas de fogo
Mas oppondo-se a tudo a Cruz divina
Tomou sobre si só toda a ruina.

Porque quebrando a furia
A pedra do Corisco na, que tinha
A Cruz, lhe fez injuria
De a partir, sendo de outras trão visinha,
Que de inveja podera desfaz-las
Por serem pedraria das estrellas.

Porém como invejosa
Só da Pedra, que tinha a Cruz sagrada
Por ser mais preciosa
Por estar á Cruz santa mais chegada,
Com tal furia a quebrou que fez pedaços
A quem o mesmo Deos teve em seus braços.

Mas, ficando corrida
De atrevimento tal, tal desacato
A pedra já partida
Escondeo entre outras com recato,
Mostrando envergonhar-se do defeito,
De não guardar á Cruz todo o respeito.

Porém todo guardara
Si quem nella morreo não permittira,
Com piedade rara
Que objecto fosse a Cruz de tanta ira,
Porque nenhuma vida perigasse
E a soberna Cruz mais o imitasse.

Porque como Deos nella
Nossos culpas livrou, nossos tormentos,
Quiz tambem que a Cruz bella
Tomasse sobre si riscos violentos,
Porque se visse bem que na Cruz Santa
Semilhança influio união tanta.

Porém a semilhança,
Que eu acho nesta acção tão parecida,
He que a humana ofensa
Pagou Christo, e a Cruz exclarescida,
Por Justos, como já por Peccadores
Fineza ostentou, soffreo rigores.

Oh bemaventurados
Os que adquirir souberam tal fineza
Vivendo retirados
Em tal imitação, em tal pobreza
Que do simples por breve potentoso
He hum penedo só tecto famoso.

Ditosos os que habitam
Em tão doce prisão, tal soledade,
ois viver solicitam
Na largueza maior da Eternidade,
E ditoso tambem o Heroe illustre
Que em tal casa fundou da Terra o lustre.

Oh! multiplique glorias
A seu ditoso Espirito a Cruz Santa
Por quem levou victorias
Que a Fama solemnisa a Terra canta
Com as quaes imprimio nos mesmos Astros,
O tymbre dos Noronhas, e Castros.

E vós Capuchos Santos
Que com tanta Oração, tal penitencia
Ganhaes favores tantos
Alcançai-me da Eterna Providencia
Favor para que louve a Cruz divina,
Que a tão firmes bonanças vos destina.

Pedi ao Rey piedoso
Que servis nesse breve Paraiso
Que de seu Sol glorioso
Hum atamo conceda ao meu juizo
Porque accerte a louvar a Cruz ditosa
Das almas doce Mâi, de Deos Esposa.

Pedi-lhe que suspenda
Os castigos que tenho merecido,
E que a Cruz me defenda
Do risco, que, por grande, he tão temido,
Pois he certo se falta a Soberana
Que contra o Ceo não val defesa humana."

sexta-feira, 20 de março de 2009

Sobre a Lenda de Honório (parte 1)

"Quanto mais alto o homem,
de mais coisas tem que se privar.
No píncaro não há lugar senão para o homem só.
Quanto mais perfeito, mais completo,
e quanto mais completo, menos outrem."

Do "Livro do Desassossego"
por Bernardo Soares/Fernando Pessoa
Volume I, pág.101


Muitos foram os veneráveis padres que passaram pelo Conventinho de Sintra, ali deixando indelével marca, ora por algo que fizeram, ora por lendas e tradições locais que evocam os seus nomes e exemplos de vida.

De entre todos, Frei Honório de Santa Maria será o mais célebre, talvez a par de Frei Agostinho da Cruz (embora este pelo que escreveu e viveu no Convento da Arrábida) e de Frei Pedro de Antoria, franciscano espanhol do Reino de Jaen e proveniente da Recoleta Casa de Abrojo e que foi um dos primeiros "arrábidos" da Província, bem como o primeiro guardião do Convento de Sintra.

Honório viveu uma longa e rica vida, que já aflorámos aqui no Blog, e a sua lenda eternizou-se (cumprindo a função que lhe é própria) na boca e nos escritos de gentes locais ou de fora, embora com várias cambiantes, que tornam a sua vida - tal como é conhecida pelos estudiosos ou visitantes do Convento - ainda mais rica e interessante.

A mais conhecida lenda relativa à vida de Honório teve no livro "Cintra Pinturesca", do Visconde de Juromenha, o seu mais eficaz divulgador. A lenda tem sido contada ao longo dos anos de formas diferentes, mantendo-se no essencial o âmago da história, que está assim resumida na página web da CM de Sintra:

"Diz-se que certa vez, Frei Honório encontrou pelos campos uma linda rapariga, "para quem não olhou", mas que o forçou a fazer algo. Exigia-lhe que a confessasse. O virtuoso monge, naquele ermo não tinha confessionário, e sem querer fixar a pequena, mandou-a para o convento em procura de outro confessor. A bela de moçoila não se conformou com a resposta e insistiu ao mesmo tempo com o bom religioso. Rubro como um tomate, a suar em bico - isto passou-se em Agosto - apressou o passo, sempre seguido daquela que lhe pedia a absolvição ou penitência, até que, voltando-se e tapando o rosto com uma das mãos para fugir à formosura que o diabo encarnara para o tentar e perder, com a outra fez o sinal da cruz, a que a endiabrada e tentadora, respondeu com um grito, fugindo para não mais ser vista. Então, Frei Honório, por castigo por ter caído em tentação, isolou-se a pão e água numa gruta existente no Convento. E lá ficou até ao fim da sua vida".

A obra "Espelho de Penitentes e Chronica da Provincia de Santa Maria da Arrabida", da autoria de Frei António da Piedade (Lisboa, 1728), dedica a Honório dois capítulos, o primeiro sobre a sua vida e o segundo dedicado a episódios particulares dos seus triunfos sobre o demónio.

Este segunda capítulo, que é o XLI da Parte I, Livro IV, inclui quatro breves narrativas, que aqui procurarei resumir, nos seus traços essenciais.

I.

Conta a Crónica da Arrábida que foi certo dia de Jubileu, quando Honório se dirigia para o Confessionário do Convento onde já o esperava muita gente das Vilas de Sintra e Colares, deparou-se com a figura de um homem humilde, que ajoelhado lhe pediu a confissão "que a queria fazer geral das suas culpas". Honório anuiu, sem saber o que o esperava, e a confissão - que julgava breve, de forma a poder ouvir todos quantos esperavam - prolongou-se por três dias seguidos, com o Padre a suster "com paciencia a molestia, por entender fazia a Deos hum grande serviço". As culpas eram enormes, e a confissão prometia demorar-se ainda muito, pelo que Honório assim se dirigiu ao homem: "Jesus me valha! Haveis de acabar de vos confessar alguma hora?". E ao pronunciar as transcritas palavras "desappareceo o penitente, deixando hum abominavel cheiro no confessionario". Era pois o demonio, que usando a máscara de homem simples procurava "estorvar os muitos Sacramentos, que houvera de ter administrado aquelles dias".

II.

A mesma Crónica narra o episódio de uma visita que no Convento lhe fez uma mulher de Cascais, que ali vinha fazer confissão, para assim iniciar um novo rumo para a sua vida "depravada". O porteiro do Convento deu o recado a Honório, mas vindo ao encontro da dita mulher, encontrou primeiro um moço, que confessou sem saber que o seu único objectivo era afastá-lo da confissão da visitante de Cascais... Prolongou-se a confissão por quatro horas, e mais teriam sido, não tivesse Honório dito: "Filho, ou tu es o diabo, ou o trazes contigo". O moço respondeu-lhe "He verdade, que eu sou o diabo, e a boa pessa lhe tenho feito", e desapareceu. Confuso, Honório procurou a penitente de Cascais, mas lhe disseram que já se havia ido. O frade de Sintra entendeu por bem procurar a mulher, por forma a não deixar triunfar o diabo, e para "a livrar das garras do infernal lobo". Com a permissão do Prelado, percorreu a Serra e foi encontrá-la já no pé da mesma. Ali mesmo a confessou, e a "animou à perseverança do proposito", partindo depois de regresso ao Convento.

(continua...)

quarta-feira, 18 de março de 2009

De "O Passeio", poema de José Maria da Costa e Silva (2ª edição, 1844)

Canto III

"(...)
E o Rio das Maçãs eternisado
Nos aureos versos do Cantor de Ulysses
Que, Virtude, te dá tão pouco apreço,
Quem em suave illusão embevecido
Não cuide em Penhaverde achar impressas
Do bom Castro as magnanimas pisadas?
Quem de Santo respeito senão toma
Vendo da Serra os Monges penitentes
O Senhor exaltar entre ermas rochas?
Quem do Jordão as grutas não recorda,
Da Thebaida os desertos? e quem póde
Deixar de proferir involuntario
De Hieronimo, Antão, e Paulo, os nomes?
(...)"

Notas do poeta:

Quem de santo respeito te não toma
Vendo da serra os Monges penitentes
O Senhor exaltar entre ermas rochas?

In another part of this mountain, and not lofty in his situation, is a convent, curiously built, among some wild, and romantic rocks; the wals, doors, and furnitures are all of cork. Some poor humble Franciscans inhabit it: they have a prety garden, and small orangery: they presented us with fruits, wero very courteous, and semed thankfull for the trifle , we gave them.

O Abbade Casti, um dos mais celebres Poétas da moderna Italia, tão conhecido pelas suas engraçadissimas Novellas e pelo seu Poema Gli Annimali Parlanti, na sua Epopéa Satyrica intitulada Il Poema Tartaro, deixou tambem uma reminiscencia da Serra de Cintra, e do Convento dos Capuchos , que visitara em sua viagem a Portugal, na seguinte bellissima Estancia.

Cosi d'Europa ali' ultimo comfino
Trascorrendo Ia Cintra Lusitana,
Io vidi il solitario Capucino
Ch' entro una cava rupe entra, e s'intana :
Ivi convento trova, horto e giardino,
E scuopri piani, e mari alla lontana.
Oh Cintra! oh Cintra! oh suol! soggiorno ameno
Di maraviglie , e di delizie pieno!

(Il Tart. Cant VIII. Stanc. XLV)

terça-feira, 17 de março de 2009

Dos "Estatutos da Provincia de Santa Maria da Arrabida" (1698)

Os Estatutos da Província são o conjunto das leis que regem a vida da comunidade arrábida no seu conjunto, contendo disposições gerais aplicáveis a todos os frades. Neste documento, datado de 1698, todos os assuntos do dia a dia das Casas da Província parecem ter lugar, desde os Hábitos aos Jejuns, passando pelos Arquivos conventuais.

Todavia, e de entre o conjunto das leis universais a todos aplicáveis, destacam-se neste capítulo XXXIX dos Estatutos disposições apenas aplicáveis às chamadas Casas Recoletas da Província: o Convento da Arrábida e o de Sintra. São precisamente essas disposições que aqui transcrevo:

Capitulo XXXIX
Das nossas Casas Recoletas

1 Em nossas Casas de N.Senhora da Arrabida, Santa Cruz de Cintra a quem assignamos por recoletas da Provincia, guardaraõ os Religiosos dellas os seguintes Estatutos. Em nenhum tempo, ainda que seja em Paschoas, se comerá dentro na clausura carne, nem se dará a pessoa alguma secular, Ecclesiástica, ou Religiosa, nem permittira Prelado algum se guize dentro na clausura por isso, & o que o contrario fizer, ou permittir, seja suspenso de seu officio ao parecer da nesa da Diffinição; & sendo subdito, em privaçaõ dos actos legitimos por dous annos: & a qualquer dis sobredittos lhe seraõ dadas tres disciplinas em diferentes Comunidades.

2 Haverá nas ditas Casas recoletas silencio perpetuo, no qual podera sómente dispensar o Prelado em os dias mais solemnes, para que isso se augmente, & cresça a devoçaõ no santos exercicios, & Oraçaõ. Procure o Irmão Ministro, quando lhe for possivel, naõ por nestes Casas Frades necessitados de vinho, & calçado; antes escolherá para ellas os Religiosos mais penitentes, & exemplares, & is mais dados ao exercicio da Oraçaõ, para o que ellas foraõ edificadas.

3 Todos os dias diraõ todas as suas culpas no refeytorio, tirados os Domingos, & dias Santos de guarda. Sera o serviço de mesa em taboa nùa, como as demais Casas, & em tosca pedra também nùa o da nossa Casa de Cintra. Beberaõ em huma, & outra por mayor desprezo, & mortificaçaõ propria por alcatruzes simplices: seraõ os guardanapos de calhamasso, ou estopa grossa. e quando na Quaresma os Prelados das dittas Casas recoletas com suas Comunidades lhe parecer, & quizerem passar com a abstinencia, que nossos primeyros Fundadores naquelles santos lugares costumavaõ de naõ comerem cousas guisadas ao fogo, nem o acender para isso, podellohaõ fazer com a bençaõ do Senhor; & a Provincia lhe agradecerá muito o sustentarem este santo, & penitente costume.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Os Capuchos no "Livro das grandezas de Lisboa" (1804)

Da obra "Livro das grandezas de Lisboa", por Nicolau de Oliveira. Publicado por Impressaõ regia, 1804. Página 150.

Sobre Sintra:

"Tem mais três Mosteiros: o primeiro , e mais chegado á villa, he o Mosteiro da Sanctissima Trindade , o qual tem dez Religiosos. O segundo he de Religiosos da Ordem de Saõ Hieronymo , chamado nossa Senhora da Pena, situado todo quasi sobre hum penedo no principio da Serra, e tem vinte Religiosos. O terceiro, que he de Franciscanos Capuchos , está quasi no fim da mesma Serra , e delle se afirma ser o mais pequeno em sitio, mais pobre, e mais áspero que todos os do mundo; e sendo este, daõse alguns Religiosos por desconsolados por lhes naõ darem seus Prelados licença pera serem moradores daquella casa onde ha dez Religiosos"

"... outras recreações, que tem Cintra, dignas de grande consideração" (1608)

Do livro "Do sitio de Lisboa. Sua grandeza, povoaçaõ e Commercio, & Dialogos de Luiz Mendes de Vasconcelos. Reimpressos conforme a Ediçaõ de 1608. Novamente correctos, e emendados". Página 168.

"... mas direi outras recreações, que tem Cintra, dignas de grande consideração, pois nella por santidade, e aspereza da vida, está o melhor do Mundo neste nosso tempo, e por novidade, frescura, e belleza de Conventos, nenhuma outra terra lhe faz vantagem; porque aonde ha outro Mosteiro como o dos Capuchos, mettido todo dentro de huma lapa, com todas as officinas cavadas na pedra della, cujas cellas são tão pequenas, que se não póde entrar nellas senão de lado, nem estar dentro em pé, e tudo o mais, e a vida dos Religiosos delle, he correspondente a esta aspereza de habitação (...)."