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sábado, 28 de março de 2009

Sobre o Hábito e Calçado dos Arrábidos

Mas os outros frades que prometeram obediência tenham uma túnica com capuz e outra sem capuz, se for necessário, e o cíngulo e as bragas. E todos os frades vistam-se de roupas vis e possam remendá-las com sacos e outros retalhos com a bênção de Deus, porque diz o Senhor no evangelho: "Os que estão em vestes preciosas também estão em delícias" (Lc 7,25) e "os que se vestem de moles estão nas casas dos reis" (Mt 11,8)."

Da Regra não-bulada da Ordem de São Francisco.

Um dos elementos identificativos e mais simbolicamente explícitos dos franciscanos era o seu hábito. Os hábitos franciscanos eram o mais visível dos elementos simbólicos transportados pelos frades, sendo denunciadores da "santa pobreza, vileza e desprezo do mundo" característica da ideia e devoção original da Ordem, e mais tarde de algumas das suas diversas matizes.

O Estatuto da Provincia da Arrabida, de 1693, contém obviamente um capítulo inteiramente dedicado a este tema (Capítulo XXV - Dos Habitos & Calçado), o qual refere alguns aspectos bem interessantes relacionados com o código de vestuário dos frades.

Começa por distinguir o frades saudáveis daqueles que estejam enfermos, permitindo a estes últimos confortos adicionais, o que é comum a outros aspectos desenvolvidos nos Estatutos, acrescentando logo em seguida que se permitirá aos frades manterem os seus hábitos remendados com recurso a panos grossos de sacos, portanto incómodos e em jeito de penitência e louvor da santa pobreza evangélica.

(Para aceder à fonte da imagem clique aqui)

A propósito, é interessante notar que este costume - originário da necessidade de ir mantendo o hábito em condições de ser usado - resultava em trajes multicoloridos, mais tarde proibidos por uma revisão das disposições estatutárias da Ordem. Lendo o capítulo dedicado a Fr. Honório de Santa Maria, contido na Crónica da Província, verificamos que de facto assim era: "Para mayor lustre da sua observancia, naõ tinha cousa alguma do seu uso, mais que o Habito, taõ vil, como composto de pedaços de varias cores, taõ estreito, que mal o podia vestir, e taõ curto, que apenas lhe chegava aos artelhos dos pés, e pulsos dos braços".

A cada frade eram concedidos "dous pannos menores", que deveriam atacar à cintura com uma corda de "cayro grossa, como costume da provincia". Os panos deveriam acompanhar todo o corpo, e ficar - no comprimento - a um ou dois dedos do chão. De roda deveriam ter nove a dez palmos, salvo no caso dos frades "mais corpulentos". Mandava também o estatuto que os capelos - cozidos ao hábito - tivessem a forma daqueles que usavem os Capuchos italianos. Usavam também mantos cingidos ao corpo.

A mudança de Hábito - ou seja, o pedido de um novo pano - carecia de autorização do Prelado.

No que ao calçado diz respeito, é sabido que os arrábidos deveriam observar com rigor o costume de andarem descalços, mas poderia o Irmão Ministro autorizar mediante licença in scriptis que determinado frade usasse sandálias. Sabe-se todavia que no Convento de Sintra havia quem usasse sandálias nos seus percursos externos à cerca (ex. Frei Cristovão de São José) e havia também quem fosse do Convento à Vila sem nada a proteger a pele dos pés (ex. Frei Miguel Falcão, que certo dia sofreu por esse facto uma profunda ferida num dos pés).

Nos dormitórios não se podia andar calçado, sob pena de disciplina, mas esta lei não se aplicava aos doentes ou a outros casos de necessidade.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Sobre a Lenda de Honório (parte 1)

"Quanto mais alto o homem,
de mais coisas tem que se privar.
No píncaro não há lugar senão para o homem só.
Quanto mais perfeito, mais completo,
e quanto mais completo, menos outrem."

Do "Livro do Desassossego"
por Bernardo Soares/Fernando Pessoa
Volume I, pág.101


Muitos foram os veneráveis padres que passaram pelo Conventinho de Sintra, ali deixando indelével marca, ora por algo que fizeram, ora por lendas e tradições locais que evocam os seus nomes e exemplos de vida.

De entre todos, Frei Honório de Santa Maria será o mais célebre, talvez a par de Frei Agostinho da Cruz (embora este pelo que escreveu e viveu no Convento da Arrábida) e de Frei Pedro de Antoria, franciscano espanhol do Reino de Jaen e proveniente da Recoleta Casa de Abrojo e que foi um dos primeiros "arrábidos" da Província, bem como o primeiro guardião do Convento de Sintra.

Honório viveu uma longa e rica vida, que já aflorámos aqui no Blog, e a sua lenda eternizou-se (cumprindo a função que lhe é própria) na boca e nos escritos de gentes locais ou de fora, embora com várias cambiantes, que tornam a sua vida - tal como é conhecida pelos estudiosos ou visitantes do Convento - ainda mais rica e interessante.

A mais conhecida lenda relativa à vida de Honório teve no livro "Cintra Pinturesca", do Visconde de Juromenha, o seu mais eficaz divulgador. A lenda tem sido contada ao longo dos anos de formas diferentes, mantendo-se no essencial o âmago da história, que está assim resumida na página web da CM de Sintra:

"Diz-se que certa vez, Frei Honório encontrou pelos campos uma linda rapariga, "para quem não olhou", mas que o forçou a fazer algo. Exigia-lhe que a confessasse. O virtuoso monge, naquele ermo não tinha confessionário, e sem querer fixar a pequena, mandou-a para o convento em procura de outro confessor. A bela de moçoila não se conformou com a resposta e insistiu ao mesmo tempo com o bom religioso. Rubro como um tomate, a suar em bico - isto passou-se em Agosto - apressou o passo, sempre seguido daquela que lhe pedia a absolvição ou penitência, até que, voltando-se e tapando o rosto com uma das mãos para fugir à formosura que o diabo encarnara para o tentar e perder, com a outra fez o sinal da cruz, a que a endiabrada e tentadora, respondeu com um grito, fugindo para não mais ser vista. Então, Frei Honório, por castigo por ter caído em tentação, isolou-se a pão e água numa gruta existente no Convento. E lá ficou até ao fim da sua vida".

A obra "Espelho de Penitentes e Chronica da Provincia de Santa Maria da Arrabida", da autoria de Frei António da Piedade (Lisboa, 1728), dedica a Honório dois capítulos, o primeiro sobre a sua vida e o segundo dedicado a episódios particulares dos seus triunfos sobre o demónio.

Este segunda capítulo, que é o XLI da Parte I, Livro IV, inclui quatro breves narrativas, que aqui procurarei resumir, nos seus traços essenciais.

I.

Conta a Crónica da Arrábida que foi certo dia de Jubileu, quando Honório se dirigia para o Confessionário do Convento onde já o esperava muita gente das Vilas de Sintra e Colares, deparou-se com a figura de um homem humilde, que ajoelhado lhe pediu a confissão "que a queria fazer geral das suas culpas". Honório anuiu, sem saber o que o esperava, e a confissão - que julgava breve, de forma a poder ouvir todos quantos esperavam - prolongou-se por três dias seguidos, com o Padre a suster "com paciencia a molestia, por entender fazia a Deos hum grande serviço". As culpas eram enormes, e a confissão prometia demorar-se ainda muito, pelo que Honório assim se dirigiu ao homem: "Jesus me valha! Haveis de acabar de vos confessar alguma hora?". E ao pronunciar as transcritas palavras "desappareceo o penitente, deixando hum abominavel cheiro no confessionario". Era pois o demonio, que usando a máscara de homem simples procurava "estorvar os muitos Sacramentos, que houvera de ter administrado aquelles dias".

II.

A mesma Crónica narra o episódio de uma visita que no Convento lhe fez uma mulher de Cascais, que ali vinha fazer confissão, para assim iniciar um novo rumo para a sua vida "depravada". O porteiro do Convento deu o recado a Honório, mas vindo ao encontro da dita mulher, encontrou primeiro um moço, que confessou sem saber que o seu único objectivo era afastá-lo da confissão da visitante de Cascais... Prolongou-se a confissão por quatro horas, e mais teriam sido, não tivesse Honório dito: "Filho, ou tu es o diabo, ou o trazes contigo". O moço respondeu-lhe "He verdade, que eu sou o diabo, e a boa pessa lhe tenho feito", e desapareceu. Confuso, Honório procurou a penitente de Cascais, mas lhe disseram que já se havia ido. O frade de Sintra entendeu por bem procurar a mulher, por forma a não deixar triunfar o diabo, e para "a livrar das garras do infernal lobo". Com a permissão do Prelado, percorreu a Serra e foi encontrá-la já no pé da mesma. Ali mesmo a confessou, e a "animou à perseverança do proposito", partindo depois de regresso ao Convento.

(continua...)

terça-feira, 10 de março de 2009

Sobre a lenda de Frei Honório de Santa Maria

Quem verdadeiramente pesquisar sobre o Convento e a sua história verificará que os dados que nos chegam dos séculos passados são, não raras vezes, contraditórios, existindo mesmo alguma polémica em matérias de natureza histórica, relacionadas com os Capuchos de Sintra.

A data de fundação do cenóbio é um desses temas, sendo possível verificar na "Chronica da Provincia de Santa Maria da Arrabida" alguma controvérsia em torno do muito referido - e aliás inscrito em lápide existente na Igreja - ano de 1560.

Outro assunto algo distorcido pelo tempo, e pelo carácter oral da tradição local, diz respeito à Lenda de Frei Honório (de Santa Maria), guardião do Convento acerca do qual já transcrevi aqui no Blog parte das linhas que lhe dedica António da Piedade, na Chronica atrás mencionada.

A Cova de Honório (Fotografia de António Passaporte, anos 50)

Muito recentemente encontrei em busca na internet uma versão compilada por Manuel J. Gandra, que sobre a Lenda de Frei Honório diz o seguinte:

"Da curiosa Relação do Castelo da Serra de Sintra, transcrevemos o presente trecho que nos falta da tentação do diabo ao virtuoso Frei Honório: Saindo do convento de (Santa Cruz ou da Cortiça) para a parte de baixo do Carril, que vai dar ao penedo, em distância de tiro de espingarda, se venera uma cruz, que fez com o dedo em uma pedra tosca o venerável Frei Honório de Santa Maria, aparecendo-lhe o demónio para impedir e confessar uma pecadora, com a qual o fez desaparecer; e havendo vários incêndios na serra, assim que chegava o fogo a este lugar, se extinguia, ficando ileso desde a cruz até à cova da cerca onde habitava."


Trata-se, como poderá verificar o/a leitor/a, de uma versão bem diferente daquela mais conhecida, que se refere a uma suposta tentação de Honório, a qual em parte nenhuma é referida nos antigos documentos relacionados com o Convento (pelo menos que eu conheça, e descontado o muito citado volume "Cintra Pinturesca").

É neste tema que me deterei num futuro próximo, agradecendo-se desde já o contributo de todos para que todas as versões da Lenda aqui fiquem abordadas, e disponíveis a quantos se interessam - ou venho a interessar - pelos Capuchos de Sintra.

sábado, 7 de março de 2009

Vida do Veneravel Fr. Honorio de Santa Maria (parte 2)

"Espelho de Penitentes e Chronica da Provincia de Santa Maria da Arrabida", da autoria de Fr. Antonio da Piedade (Lisboa, 1728).

Parte I. Livro IV. Capitulo XL.

Vida do Veneravel Fr. Honorio de Santa Maria


997 A ultima Guardianîa que teve, foy no Convento de Cintra; e sendo absoluto della, lhe concedeo o Provincial, que ficasse morador no mesmo Convento, por lje naõ faltar à espiritual consoluçaõ, que nela sentia; e com licença dos Prelados elegeo por cela huma cova, que está na Cerca, naõ como a de Melibeo toda frondosa, mas sim como aquella de que falla Quinciano, sombria, triste, e medonha, cuja horrorosa vista intimida aos humanos para a verem, quando mais para a habitarem. Ninguem a vê, sem que lhe sirva para despertador da morte; e todos ouvem assombrados, que nele podesse viver dezaseis annos continuos Fr. Honorio, contando já oitenta de idade. A sua cama era huma cortiça, e huma pedra, ou pao lhe servia de cabeceira, sem outra alguma cobertura, com que se pudesse reparar dos frios, mais que a de dous grandes penedos, que lhe impedem a claridade. Nela assistia de dia, e de noite até às Matinas, e as poucas horas que dava de decanso ao corpo, sempre era encolhido. Todas as noites vinha rezar Matinas ao Coro; e o tempo, que restava até se tanger a Prima, passava em altissima contemplaçaõ diante do Santissimo Sacramento, em cuja presença fazia huma dsciplina taõ dilatada, como rigorosa. O sangue, que derramava, o arguia de cruel; porém as feridas se convertiaõ em bocas, que publicavaõ os triunfos da penitencia, contra os ardilosos combates do demonio, que se desvelava em o perseguir.

998 Parecia-lhe limitado este castigo, para domar a rebeldia da carne, que sempre repugna à mortificaçaõ, e usava de hum cilicio de cairo, com que cingia quasi todo o corpo, em cujo tormento rara vez dispensava. Todas as sestas feiras apparecia no refeitorio com hum molho de sylvas ao pescosso, e com os olhos nellas dizia a sua culpa, e tomava a refeiçaõ de paõ, e agua. Nas da Quaresma, em sinal de como trazia na memoria muito presente a Paixaõ do seu amado Jesus, vinha rodeado da contura para cima das mesmas sylvas: disciplinava-se até lhe fazer o Prelado final, e comia em terra. Depois de satisfeitas as suas obrigaçoens, occupava-se nos exercicios mais humildes dos Conventos, mondando a Horta, e alimpando com huma enxada as ruas da Cerca, e outros mais que estavaõ entregues aos cuidados dos Coristas. Prezava-se de muito amante de tanta pobreza, e naõ lhe parecia bem outra cousa, mais que a que se ordenava a obsequiar esta virtude. Para mayor lustre da sua observancia, naõ tinha cousa alguma do seu uso, mais que o Habito, taõ vil, como composto de pedaços de varias cores, taõ estreito, que mal o podia vestir, e taõ curto, que apenas lhe chegava aos artelhos dos pés, e pulsos dos braços; e para que nestas partes se não desfiasse, o fortalecia com ourellas de coiro, e lhe ficavão tambem servindo de aspero cilicio.

999 Com as aguas da penitencia em que se purificavaõ os peccadores, saciava este Servo de Deos a sede, que tinha de lhe salvar as almas, assistindo no Confessionario de dia, e de noite. Tal era a graça, com que ministrava o Sacramento da Penitencia, e taõ copiosos os frutos, que das suas exhortaçoens colhiaõ os penitentes, que de terras muito distantes o vinhaõ procurar, para alivio das suas consciencias. Em muitas occasioens lhe succedeo pelo grande concurso de gente, estar no Confessionario desde a manhãa até à noite; e quando neste tempo vinha tomar a refeiçaõ corporal, se contentava com paõ, e agua, pedindo licença aos Prelados para dar o mais, que lhe haviaõ guardado, a alguns pobres, que havia confessado. Com este caritativo zelo, quando naõ vinhaõ os penitentes ao Convento, os procurava elle nas suas Freguezias, offerecendo-lhe prompta a suas almas a suave medicina da penitencia. Também os industriava na doutrina Christãa, santo exercicio da oraçaõ mental, e com grande empenho os persuadia, a que professassem a Terceira Regra do nosso serafico Patriarcha, e a observassem em suas casas, o que via observando com extremosa consolaçaõ do seu espirito, e grande gloria de Deos. Chefavaõ repetidas as noticias destas exemplaridades ao Arcebispo de Lisboa D. Jorge de Almeida, e costumava dizer, que naõ havia no seu Arcebispado, quem fizesse mais fruto nas almas dos seus diocesanos, que o Padre Fr. Honorio, e naõ deixava de o encarecer assim aos Prelados, quando o visitavaõ.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Vida do Veneravel Fr. Honorio de Santa Maria (parte 1)

"Espelho de Penitentes e Chronica da Provincia de Santa Maria da Arrabida", da autoria de Fr. Antonio da Piedade (Lisboa, 1728).

Parte I. Livro IV. Capitulo XL.

Vida do Veneravel Fr. Honorio de Santa Maria

993 Iguaes nas emprezas mas desiguaes nos fins se mostrão os mundanos, e os penitentes. Todos morrem por não morrer, porque todos mortificão os appetites, em que consiste no sentir dos Filosofos a morte continuada. Há porém esta differença, que os mundanos morrem por dilatar a vida ao corpo, e os penitentes por conservar a vida ao espirito. Com o desejo de viverem mais, se privão aqueles muitas vezes do gosto, que podião ter, comendo, bebendo e passeando, e divertindo-se, só por presumirem lhe será nocivo à saude; e este genero de morte se condemnou já na Gentilidade da loucura. Tudo isto obrão os penitentes, delineando tribulaçoens ao espirito, humiliaçoens aos sentidos, para viver mais com Deos, e este he o sacrificio de que o mesmo Senhor se agrada. Com este argumento concluhio a vida o Veneravel Fr. Honorio de Santa Maria, que lhe durou pelo espaço de novente e cinco annos, consummidos com rigorosas penitencias, e consumados com portentosos finaes da grande aceitação, que tiveram nos agrados Divinos.

994 Foy natural da Villa de Arcos de Valdevez, situada na Provincia de Entre Douro, e Minho; livre porém dos defeituosos costumes, que dos naturaes desta Comarca adverte a Ordenação do nosso Reyno, porque invoca a Deos de todo o coração, para firmar verdadeiro o proposito, com que se resolvera a desprezar o Mundo, e as suas vaidades. Tomou o Habito na Provincia de Portugal, de que depois se formou a de Santo Antonio, e esta vemos hoje dividida na da Conceição. Pelas virtudes, que nelle admirava o Illustrissimo D. Fr. Marcos de Lisboa, Bispo do Porto, o elegeo por seu Companheiro, quando sendo Chronista Geral da Ordem, foy indagar as noticias pelas Provincias entrangeiras. As melhores, que Fr. Honorio colheo, para compor com mais perfeição as acçoens da sua vida, forão as grandes asperezas, abstinencias, continua oração, e a estreitissima observancia da santa pobreza, em que florecia a nossa Provincia, e se aventajava às mais. Determinou logo aproveitarse dellas, julgando seria desta forte a sua composição muito vistosa aos olhos de Deos.

995 No anno de 1561 sendo Provincial Fr. Jacome Peregrino, veyo para a Provincia; e não obstante contar já sessenta annos de idade, tanto era o valor com que abraçava os rigores, que já o podião venerar como exemplar das penitencias. Admirarão-lhe os Padres da Mesa hum espirito muito simplez para os empregos da obediente, e o incorporarão sem a minima repugnancia, como quem esperava respeitallo como Oraculo de todas as virtudes. Não se enganarão no juizo, porque tantos forão os respeitos, que conciliou de virtuoso, que ninguem duvidava darlhe as acclamações de Santo; e com esta fama se conservão ainda hoje as suas veneraveis memorias, assim na Provincia, cini en todo o destricto do Convento da Serra de Cintra, onde faleceo, e servio de theatro a suas penitenciais, de campo a suas batalhas, e de immortal Padrão aos seus agigantados merecimentos. Supposto que nos Conventos, em que assistio subdito, e governou Prelado, se esmerasse nas exemplaridades de perfeito Religioso, neste da Serra se aventajou tantos nos rigores, e asperezas com que se macerava, que a não apellarmos oaea as valentias da graça, se fazem incriveis das forças da natureza.

996 A todas as mais creaturas, excepto o homem, louvou Deos quando as creou; e o que parece desabono da sua creação, he argumento do seu maior realce. Nem disse que era bom, nem que era mao; porque quiz que elle fosse o mesmo, que desse o assumpto aos seus applausos, ou aos seus vituperios; em suas nãos lhe poz o pincel do livre alvedrio, para que se pintasse como quizesse; e consiste o desatino de alguns, em que podendo pintarse de Anjos, se pintão como brutos; e estes se comparão , quando cegos dos seus appetites se precipitão, podendo resplandecer em virtudes, para participarem daqueles as semelhanças. Estas devemos sem escrupulo contemplar no Veneravel Frey Honorio, que as adquirio pela pureza da vida, matizada com as excelentes cores de muitas disciplinas, oraçoens, vigilias, e abstinencias. Jejuava seis Quaresmas, em que repartia todo o anno, e muitos dias na da Igreja passava somente com hervas cozidas, sem tempero algum, e o paõ, com que as comia, passava pouco mais de duas onças, esse de rala, e do mais duro, que vinha na esmola. Todas as vigilias dos Santos, e sestas feiras era o jejum de paõ, e agua indispensavel. Menos rigorosas eraõ as abstinencias com que se mortificava o Anacoreta Patroclus, e bastarão para o perpetuaram enfermo: triunfou porém o nosso Fr. Honorio com as suas, sendo mais extraordinarias, de toda a enfermidade; antes se conservou tão robusto, que nunca foy sangrado, nem nas Enfermarias foy visto já mais com alguma doença.

Continuação: Parte 2 | Continua...