Sem notas nem extensa introdução, aqui deixo em jeito de partilha - a verdadeira vocação deste Blog dedicado ao Conventinho - uma bonita "canção" de Soror Violante do Céu (1601-1693), freira dominicana que escreveu sobre a Casa franciscana da Santa Cruz de Sintra, a propósito de um "corisco" que na Cerca partiu uma Cruz, sem fazer vítimas entre a comunidade de religiosos arrábidos.
Porque este singular e belíssimo poema fala por si, aqui fica a transcrição:
"Si minha penna fôra
Das azas de algum Anjo produzida,
Tanto vôara agora,
Que da Arvore que o foi da melhor vida,
Applaudira o valor com canto excelso,
Como anhela a razão, pede o sucesso.
Mas supposto que seja
Indigna minha penna de tal gloria,
Quero que o Mundo vêja
A nova Redempção, nova victoria,
Que obrou, que conseguio a Cruz divina
Na Casa singular, que patrocina.
Naquella altiva Serera,
Que em Cintra desafia o Firmamento,
Hum breve Ceo na Terra
Ostenta a Santidade de hum Convento,
Tão raro na virtude, e Santidade,
Como raro tambem na brevidade.
He o titulo delle
Sancta Cruz, porque á Cruz he dedicado,
Que assiste sempre nelle
Pois no mesmo Sacrario collocado
Tem aquelle ditoso, e Sancto Lenho,
Que foi das nossas almas desempenho.
Na breve cerca deste
Epilogo de excessos portentosos,
Quiz o pendão celeste
Obrar tambem excessos amorosos
Pois da balla terrivel de hum corisco
Quiz que fosse só seu o alheio risco.
Porque dando temores
A todo o claro globo huma tormenta,
Que em raios, e esplendores,
Falsificou cruel a alma violenta,
Abortou o vapor que congelado
Ficou em pedra dura transformado.
Não dirigio o tiro
A' soberba da Serra levantada,
Senão ao bom retiro
De hum logar que na cerca limitada,
Serve, por solitario, de deserto,
Aos que vam contemplar no amor mais certo.
E sendo frequentado
De hum, e outro Capucho venturoso,
Logar tão retirado
Principio do Successo milagroso,
Foi não estar nenhum naquella hora
Aonde cada qual contempla, e ora.
Com barbara ousadia
Ao pé da Arvore excelsa cahio logo
A pedra, que trazia
Contra toda a defensa armas de fogo
Mas oppondo-se a tudo a Cruz divina
Tomou sobre si só toda a ruina.
Porque quebrando a furia
A pedra do Corisco na, que tinha
A Cruz, lhe fez injuria
De a partir, sendo de outras trão visinha,
Que de inveja podera desfaz-las
Por serem pedraria das estrellas.
Porém como invejosa
Só da Pedra, que tinha a Cruz sagrada
Por ser mais preciosa
Por estar á Cruz santa mais chegada,
Com tal furia a quebrou que fez pedaços
A quem o mesmo Deos teve em seus braços.
Mas, ficando corrida
De atrevimento tal, tal desacato
A pedra já partida
Escondeo entre outras com recato,
Mostrando envergonhar-se do defeito,
De não guardar á Cruz todo o respeito.
Porém todo guardara
Si quem nella morreo não permittira,
Com piedade rara
Que objecto fosse a Cruz de tanta ira,
Porque nenhuma vida perigasse
E a soberna Cruz mais o imitasse.
Porque como Deos nella
Nossos culpas livrou, nossos tormentos,
Quiz tambem que a Cruz bella
Tomasse sobre si riscos violentos,
Porque se visse bem que na Cruz Santa
Semilhança influio união tanta.
Porém a semilhança,
Que eu acho nesta acção tão parecida,
He que a humana ofensa
Pagou Christo, e a Cruz exclarescida,
Por Justos, como já por Peccadores
Fineza ostentou, soffreo rigores.
Oh bemaventurados
Os que adquirir souberam tal fineza
Vivendo retirados
Em tal imitação, em tal pobreza
Que do simples por breve potentoso
He hum penedo só tecto famoso.
Ditosos os que habitam
Em tão doce prisão, tal soledade,
ois viver solicitam
Na largueza maior da Eternidade,
E ditoso tambem o Heroe illustre
Que em tal casa fundou da Terra o lustre.
Oh! multiplique glorias
A seu ditoso Espirito a Cruz Santa
Por quem levou victorias
Que a Fama solemnisa a Terra canta
Com as quaes imprimio nos mesmos Astros,
O tymbre dos Noronhas, e Castros.
E vós Capuchos Santos
Que com tanta Oração, tal penitencia
Ganhaes favores tantos
Alcançai-me da Eterna Providencia
Favor para que louve a Cruz divina,
Que a tão firmes bonanças vos destina.
Pedi ao Rey piedoso
Que servis nesse breve Paraiso
Que de seu Sol glorioso
Hum atamo conceda ao meu juizo
Porque accerte a louvar a Cruz ditosa
Das almas doce Mâi, de Deos Esposa.
Pedi-lhe que suspenda
Os castigos que tenho merecido,
E que a Cruz me defenda
Do risco, que, por grande, he tão temido,
Pois he certo se falta a Soberana
Que contra o Ceo não val defesa humana."
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terça-feira, 24 de março de 2009
quarta-feira, 18 de março de 2009
De "O Passeio", poema de José Maria da Costa e Silva (2ª edição, 1844)
Canto III
"(...)
E o Rio das Maçãs eternisado
Nos aureos versos do Cantor de Ulysses
Que, Virtude, te dá tão pouco apreço,
Quem em suave illusão embevecido
Não cuide em Penhaverde achar impressas
Do bom Castro as magnanimas pisadas?
Quem de Santo respeito senão toma
Vendo da Serra os Monges penitentes
O Senhor exaltar entre ermas rochas?
Quem do Jordão as grutas não recorda,
Da Thebaida os desertos? e quem póde
Deixar de proferir involuntario
De Hieronimo, Antão, e Paulo, os nomes?
(...)"
Notas do poeta:
Quem de santo respeito te não toma
Vendo da serra os Monges penitentes
O Senhor exaltar entre ermas rochas?
In another part of this mountain, and not lofty in his situation, is a convent, curiously built, among some wild, and romantic rocks; the wals, doors, and furnitures are all of cork. Some poor humble Franciscans inhabit it: they have a prety garden, and small orangery: they presented us with fruits, wero very courteous, and semed thankfull for the trifle , we gave them.
O Abbade Casti, um dos mais celebres Poétas da moderna Italia, tão conhecido pelas suas engraçadissimas Novellas e pelo seu Poema Gli Annimali Parlanti, na sua Epopéa Satyrica intitulada Il Poema Tartaro, deixou tambem uma reminiscencia da Serra de Cintra, e do Convento dos Capuchos , que visitara em sua viagem a Portugal, na seguinte bellissima Estancia.
Cosi d'Europa ali' ultimo comfino
Trascorrendo Ia Cintra Lusitana,
Io vidi il solitario Capucino
Ch' entro una cava rupe entra, e s'intana :
Ivi convento trova, horto e giardino,
E scuopri piani, e mari alla lontana.
Oh Cintra! oh Cintra! oh suol! soggiorno ameno
Di maraviglie , e di delizie pieno!
(Il Tart. Cant VIII. Stanc. XLV)
"(...)
E o Rio das Maçãs eternisado
Nos aureos versos do Cantor de Ulysses
Que, Virtude, te dá tão pouco apreço,
Quem em suave illusão embevecido
Não cuide em Penhaverde achar impressas
Do bom Castro as magnanimas pisadas?
Quem de Santo respeito senão toma
Vendo da Serra os Monges penitentes
O Senhor exaltar entre ermas rochas?
Quem do Jordão as grutas não recorda,
Da Thebaida os desertos? e quem póde
Deixar de proferir involuntario
De Hieronimo, Antão, e Paulo, os nomes?
(...)"
Notas do poeta:
Quem de santo respeito te não toma
Vendo da serra os Monges penitentes
O Senhor exaltar entre ermas rochas?
In another part of this mountain, and not lofty in his situation, is a convent, curiously built, among some wild, and romantic rocks; the wals, doors, and furnitures are all of cork. Some poor humble Franciscans inhabit it: they have a prety garden, and small orangery: they presented us with fruits, wero very courteous, and semed thankfull for the trifle , we gave them.
O Abbade Casti, um dos mais celebres Poétas da moderna Italia, tão conhecido pelas suas engraçadissimas Novellas e pelo seu Poema Gli Annimali Parlanti, na sua Epopéa Satyrica intitulada Il Poema Tartaro, deixou tambem uma reminiscencia da Serra de Cintra, e do Convento dos Capuchos , que visitara em sua viagem a Portugal, na seguinte bellissima Estancia.
Cosi d'Europa ali' ultimo comfino
Trascorrendo Ia Cintra Lusitana,
Io vidi il solitario Capucino
Ch' entro una cava rupe entra, e s'intana :
Ivi convento trova, horto e giardino,
E scuopri piani, e mari alla lontana.
Oh Cintra! oh Cintra! oh suol! soggiorno ameno
Di maraviglie , e di delizie pieno!
(Il Tart. Cant VIII. Stanc. XLV)
Etiquetas:
Cartas e narrativas,
História do Convento,
Poesia
quinta-feira, 12 de março de 2009
"A Serra de Cintra" (1814), por Ricardo Raimundo Nogueira
O poema "A Serra de Cintra", da autoria de Ricardo Raimundo Nogueira (1746-1827) é uma composição de rara beleza dedicada a Sintra e ao seu património natural e edificado.
Composto de 70 estrofes de 6 versos (sextilhas), o autor dedicado ao Convento três: as estrofes 12, 13 e 14, nas quais se refere ao ermo local em que se construiu o cenóbio, à lenda da fundação (na versão do sonho de D. João de Castro) e ao padroado dos Castros da Penha Verde.
12
Vê agora sem arte e sem estudo
Sem planta, medição, engenho, e risco
A Caza de Francisco,
O recinto, o portal, a Igreja, e tudo
Duros penedos são aprovesitados
Alli pela mão próvida espalhados.
13
O forte insigne Castro o vio em mente
N'um dia andando á caça n'estas brenhas
Huma Cruz sobre as penhas,
Diviza, observa, e adora promptamente,
Sentio-se penetrado, e commovido,
Assim foi o Convento concebido.
14
O seu Filho D. Alvaro de Castro
Heróe, filho de Heróe, nobre, e devoto
Cumprio, e deo com o voto
Aos Campos nova luz, á Serra hum Astro;
Ainda o Successor he Padroeiro,
Dos bens não só, mas da Piedade Herdeiro.
Composto de 70 estrofes de 6 versos (sextilhas), o autor dedicado ao Convento três: as estrofes 12, 13 e 14, nas quais se refere ao ermo local em que se construiu o cenóbio, à lenda da fundação (na versão do sonho de D. João de Castro) e ao padroado dos Castros da Penha Verde.
12
Vê agora sem arte e sem estudo
Sem planta, medição, engenho, e risco
A Caza de Francisco,
O recinto, o portal, a Igreja, e tudo
Duros penedos são aprovesitados
Alli pela mão próvida espalhados.
13
O forte insigne Castro o vio em mente
N'um dia andando á caça n'estas brenhas
Huma Cruz sobre as penhas,
Diviza, observa, e adora promptamente,
Sentio-se penetrado, e commovido,
Assim foi o Convento concebido.
14
O seu Filho D. Alvaro de Castro
Heróe, filho de Heróe, nobre, e devoto
Cumprio, e deo com o voto
Aos Campos nova luz, á Serra hum Astro;
Ainda o Successor he Padroeiro,
Dos bens não só, mas da Piedade Herdeiro.
terça-feira, 3 de março de 2009
Poema dedicado a Fr. Agostinho da Cruz
Agostinho Pimenta, que ficou imortalizado com o seu nome religioso de Frei Agostinho da Cruz, foi noviço nos Capuchos de Sintra, tendo aliás feito parte da comunidade inicial que ali se estabeleceu após a fundação do cenóbio, em 1560. É precisamente a essa filiação que alude Santos Cravina no seu soneto "Do berço à tumba", de 1941, incluído no volume "O místico da Arrábida", dedicado ao poeta e místico franciscano.
"Do berço à tumba"
Ponte da Barca é berço do Poeta
de Agostinho Pimenta batisado.
Lá junto ao Lima foi predestinado
para servir a Deus em vida asceta...
De flôres seu caminho se atapeta
em Santa Cruz de Sintra a Deus é dado,
a Setúbal passando. Além do Sado
do Ceu descobre a linda estrada recta.
Ergue na Arrábida a alta Cruz e canta
da Natura e da Fé em mistério
a inteligência humana absorve e espanta...
Servindo a Deus no arrábido ermitério
em Setúbal lhe dá a sua alma santa
e a Arrábida é-lhe Tumba e cemitério.
"Do berço à tumba"
Ponte da Barca é berço do Poeta
de Agostinho Pimenta batisado.
Lá junto ao Lima foi predestinado
para servir a Deus em vida asceta...
De flôres seu caminho se atapeta
em Santa Cruz de Sintra a Deus é dado,
a Setúbal passando. Além do Sado
do Ceu descobre a linda estrada recta.
Ergue na Arrábida a alta Cruz e canta
da Natura e da Fé em mistério
a inteligência humana absorve e espanta...
Servindo a Deus no arrábido ermitério
em Setúbal lhe dá a sua alma santa
e a Arrábida é-lhe Tumba e cemitério.
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