Uma das inovações que mais recentemente foi introduzida no Convento dos Capuchos foi a instalação, em toda a zona interior do corpo central da Casa, de uma mangueira com iluminação (do tipo "árvore de natal"), a qual torna mais confortável a circulação de visitantes nos seus antigos e mal iluminados corredores.
A solução já havia sido implementada anteriormente nos túneis abertos ao público na Quinta da Regaleira.
Não questiono as vantagens da instalação de iluminação artifical no interior do Convento, no que aos visitantes diz respeito. De facto, o Conventinho possui uma natureza subterrânea, críptica, que determina uma fraca iluminação natural, a qual torna a circulação menos fluída, mais insegura e o espaço menos "agradável" ao comum visitante...
O que todavia penso ter a obrigação de realçar são as desvantagens desta situação, de entre as quais se destaca um certo desvirtuamento do carácter subterrâneo anteriormente referido... É que o Convento não foi construído "terra a dentro" por mero acaso. E não é mal iluminado, interiormente, por mero acaso.
O despertar dos sentidos internos requer um apagamento dos sentidos externos, como a visão (daí o escuro) e a audição (daí o silêncio que os próprios estatutos arrábidos exigiam na clausura). Ora, ao iluminar integralmente todo o percurso interior no Convento, a tutela reduziu - naturalmente sem má intenção - a percepção e interpretação de uma característica fundamental do Convento referida em praticamente todas as crónicas e narrativas a ele dedicadas nos últimos 450 anos...
Acredito que existem alternativas à "mangueira de iluminação", igualmente eficazes e que cumprem os mesmo objectivos daquela, sem impacto directo na vivência que o visitante fará do Convento e da sua natureza subterrânea. A distribuição de pequenas lanternas (p.e. uma lanterna por cada 2 pessoas) aos visitantes parece-me a mais óbvia (creio que no passado foi uma solução experimentada... mas não tenho a certeza), embora certamente existam outras.
Fica a crítica (construtiva) e a proposta, que creio ser do interesse do espaço bem como dos seus visitantes. É que no diálogo entre ambos a luz (artifical e permanente, com "L" pequeno) não deve constituir um elemento de perturbação.
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quarta-feira, 25 de março de 2009
domingo, 8 de fevereiro de 2009
A pia de água benta do Portal da Igreja
No lado direito da porta que dá acesso à pequena Igreja Conventual dos Capuchos existiu, durante muito tempo, uma pequena pia contendo água benta (ver imagem a preto e branco, em baixo). Este elemento do portal foi todavia destruído no final da década de 90, dele restando apenas uma memória suportada em imagens.
Aspecto actual do portal de acesso à Igreja. À direita, o pequeno pilar que suportava a Pia, hoje desaparecida.
Aspecto actual do portal de acesso à Igreja. À direita, o pequeno pilar que suportava a Pia, hoje desaparecida.
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sábado, 7 de fevereiro de 2009
SOS Azulejos (2ª actualização)
Paínel desaparecido dos Capuchos há mais de 20 anos, em 1984. Fotografia retirada do Site do Projecto SOS Azulejos (Polícia Judiciária), com a seguinte legenda: "Cerca de 15 azulejos, parte de um painel, furtado em 7/10/1984 da Capela do Sr. Dos Passos do Convento dos Capuchos em Sintra".
Se souber onde se encontra este painel, contacte as autoridades policiais.
Descrição do revestimento da Capela, por J.M. dos Santos Simões, no seu "Azulejaria em Portugal no século XVIII" (página 320):
"No famoso eremitério dos franciscanos arrábidos bem conhecido dos turistas - o Cork Convent dos ingleses - erigido entre fragas graníticas da Serra de Sintra, em 1560 a pedidos dos Castros, senhores da Serra, ainda se conservam os azulejos da Capela do Senhor dos Passos, cavada entre penhascos, cuja porta dá para o alpendre da portaria.
São azulejos dos meados do século XVIII, de cerca de 1740, de pintura azul, figurados, tendo nas paredes que ladeiam o pequeno altar as cenas da Flagelação e da Coroação de Espinhos (NdEd. Os dois painéis encontram-se actualmente incompletos).
A abóbada, também azulejada, é compartimentada em pequenos quadros com emblemas da paixão, entre estrelas. Sobre a porta, do lado interior, o tímpano contém o quadro de Jesus Crucificado".
Se souber onde se encontra este painel, contacte as autoridades policiais.Aspecto da capela, ainda com imagem do Senhor dos Passos, no início da década de 50. Repare-se que já então havia uma parte do painel em falta
(Fotografia de António passaporte).
(Fotografia de António passaporte).
Descrição do revestimento da Capela, por J.M. dos Santos Simões, no seu "Azulejaria em Portugal no século XVIII" (página 320):
"No famoso eremitério dos franciscanos arrábidos bem conhecido dos turistas - o Cork Convent dos ingleses - erigido entre fragas graníticas da Serra de Sintra, em 1560 a pedidos dos Castros, senhores da Serra, ainda se conservam os azulejos da Capela do Senhor dos Passos, cavada entre penhascos, cuja porta dá para o alpendre da portaria.
São azulejos dos meados do século XVIII, de cerca de 1740, de pintura azul, figurados, tendo nas paredes que ladeiam o pequeno altar as cenas da Flagelação e da Coroação de Espinhos (NdEd. Os dois painéis encontram-se actualmente incompletos).
A abóbada, também azulejada, é compartimentada em pequenos quadros com emblemas da paixão, entre estrelas. Sobre a porta, do lado interior, o tímpano contém o quadro de Jesus Crucificado".
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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
Perguntas sem resposta...
(Post publicado no Blog Serra de Sintra, em Julho de 2007)
PSML: cega, surda e muda...
17 de Julho de 2007
Há umas semanas enviei para o endereço de e-mail da PSML uma mensagem com duas simples questões acerca do Convento dos Capuchos. A ausência de resposta - esperada - vem apenas confirmar as minhas suspeitas: a empresa continua de costas voltadas para os Parques e para aqueles que se interessam pela sua situação, de forma desinteressada.
O mail que então enviei foi este:
Bom dia.
O meu nome é Rui Vasco Silva e esta não é a primeira vez que contacto os serviços da PSML.
Sou visitante muito assíduo do Parque da Pena e do Convento dos Capuchos, e tenho acompanhado o trabalho (o negativo e o positivo) da PSML nestes dois espaços de ímpar importância no contexto do património histórico e espiritual do Concelho de Sintra e do País.
Ao longo dos anos, tenho abordado por escrito diversos aspectos da intervenção da PSML nos diversos espaços de tutela, em especial relativamente ao Convento dos Capuchos.
É aliás a propósito do Convento que vos volto a escrever, no sentido de questionar a PSML acerca das suas intenção relativamente às imagens retiradas dos locais de origem - há alguns anos, para recuperação - e nunca devolvidas.
Recordo-me por exemplo do sacrário, das várias imagens em madeira, dos dois frades terracota (penso que são em terracota) semi-enterrados, da porta da sala do capítulo... entre outros exemplos.
Qual o actual estado destas peças? Estão em processo de recuperação (ainda)? Estão esquecidas? Ou estão recuperadas mas não devolvidas ao Convento?
Agradecido pela vossa atenção, despeço-me com os melhores cumprimentos.
Rui Silva
PSML: cega, surda e muda...
17 de Julho de 2007
Há umas semanas enviei para o endereço de e-mail da PSML uma mensagem com duas simples questões acerca do Convento dos Capuchos. A ausência de resposta - esperada - vem apenas confirmar as minhas suspeitas: a empresa continua de costas voltadas para os Parques e para aqueles que se interessam pela sua situação, de forma desinteressada.
O mail que então enviei foi este:
O meu nome é Rui Vasco Silva e esta não é a primeira vez que contacto os serviços da PSML.
Sou visitante muito assíduo do Parque da Pena e do Convento dos Capuchos, e tenho acompanhado o trabalho (o negativo e o positivo) da PSML nestes dois espaços de ímpar importância no contexto do património histórico e espiritual do Concelho de Sintra e do País.
Ao longo dos anos, tenho abordado por escrito diversos aspectos da intervenção da PSML nos diversos espaços de tutela, em especial relativamente ao Convento dos Capuchos.
É aliás a propósito do Convento que vos volto a escrever, no sentido de questionar a PSML acerca das suas intenção relativamente às imagens retiradas dos locais de origem - há alguns anos, para recuperação - e nunca devolvidas.
Recordo-me por exemplo do sacrário, das várias imagens em madeira, dos dois frades terracota (penso que são em terracota) semi-enterrados, da porta da sala do capítulo... entre outros exemplos.
Qual o actual estado destas peças? Estão em processo de recuperação (ainda)? Estão esquecidas? Ou estão recuperadas mas não devolvidas ao Convento?
Agradecido pela vossa atenção, despeço-me com os melhores cumprimentos.
Rui Silva
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Manifesto em prol de um Organismo com Alma que importa manter Viva
por José CARDIM RIBEIRO
Comissário da Paisagem Cultural de Sintra
Durante décadas os problemas relacionados com a recuperação de um monumento, de um centro histórico, mesmo de uma paisagem, resumiam-se essencialmente à optimização das técnicas interventivas, tendo em vista preservar a autenticidade do bem e, tanto quanto possível, conciliar, sob o ponto de vista da ciência dos materiais, os novos produtos empregues nos restauros com as estruturas originais. Tratava-se, pois, de um assunto eminentemente técnico, no âmbito da engenharia e do restauro, o qual – pesem embora várias diferenças de escola – não constitui hoje motivo de especial polémica, encontrando-se de há muito consensualizados os processos mais eficazes a aplicar.
Porém, desde há alguns anos que se vem a colocar uma outra dimensão do problema. Não já a do equilíbrio material do bem, mas sim a da manutenção das características ambientais próprias dos edifícios e dos lugares, características não apenas ditadas pela essência do próprio objecto, arquitectónico ou paisagístico, na sua originalidade, na sua autenticidade, mas também pelas múltiplas e imprevisíveis marcas da passagem do tempo.
Muitas vezes um visitante não é especialmente atraído pelo estilo de um edifício, pelo rigor urbanístico de um bairro, ou pela raridade de uma espécie vegetal,mas sim por factores aleatórios que, ao longo dos tempos, imprimiram a esses lugares um sabor particular, uma ambiência própria .
Trata-se agora, em última análise, de manter vivo o "génio do lugar" , dimensão sensorial que não é mensurável, nem muitas vezes facilmente explicável, mas que quase sempre constitui, afinal, um dos mais significativos sinais de distinção entre cada sítio, cada centro histórico, cada monumento – e, muitas vezes, o principal motivo de atracção que exerce junto dos visitantes.
A nossa época não se contenta com exactidões matemáticas, antes procura as insondáveis subtilezas inerentes ao subjectivo. Usufruir um sítio, contemplá-lo, não se faz só com o cérebro, mas também – e principalmente – com a alma.
Evidentemente que a reabilitação de um centro urbano, a recuperação de imóveis ou de jardins históricos, implicam necessariamente a utilização das técnicas credenciadas, a nível internacional, pela ciência e pela prática. Mas haverá também que saber conciliá-las com a intransigente protecção do "génio do lugar", sob pena de transformar um organismo vivo num simples corpo embalsamado.
Este é um desafio da actualidade, dos nossos tempos, da nossa geração. As soluções não são simples, nem universais, nem mesmo unânimes. Mas há que encarar de frente o problema, evitando sempre as respostas mais fáceis, as intervenções estandardizadas, os lugares-comuns.Cada bem patrimonial é um caso singular, e unicamente uma profunda meditação sobre a sua específica personalidade nos poderá conduzir ao caminho mais correcto .
Trata-se de evidenciar e preservar a componente imaterial que envolve um monumento, um centro histórico, uma paisagem, componente imaterial que muitas vezes se cristalizou no imaginário colectivo não só por directa acção das intrínsecas características ambientais de um objecto, de um local, mas também a partir
de determinada visão privilegiada a dada altura fixada num poema, num romance, num texto de viagem, numa tela, e que veio ulteriormente a condicionar não só o modo de olhar e de usufruir esse bem patrimonial, mas também a criar expectativas previamente construídas no imaginário dos potenciais visitantes.
Poetas como Lord Byron, escritores como Pierre Loti, ou os pintores orientalistas – entre tantos outros –, emprestam-nos os seus olhos para, através deles, contemplarmos a realidade. E tanto mais nos sentimos identificados com essa mesma realidade quanto a nossa própria observação coincida com os parâmetros culturais previamente adquiridos, acreditados – e tantas vezes sonhados.Pelo contrário, a inesperada dissonância causará perplexidade e incómodo. O sonho desfaz-se e a desilusão penetra profundamente o visitante. Algo morre dentro de si. Como morto – ou desvirtuado, ou subvertido – se encontrará já, porventura, o genius loci do objecto, do sítio em causa .
Como actuar, pois, para preservar, para manter viva essa componente imaterial, esse património intangível – a “alma” de um sítio?
Em primeiro lugar,torna-se imperioso compreendê-la, interiorizá-la, quer a nível dos seus traços preponderantes, quer quanto a outras diversas facetas mais obscuras e discretas que, no entanto, lhe matizam e melhor definem a sua personalidade própria .
Para tal importa não só analisar detalhadamente o bem patrimonial em causa, em todas as suas vertentes materiais, necessariamente solidárias e complementares, procedendo a uma minuciosa observação directa,procurando desvendar o real-imaginário que se esconde por detrás das aparências , meditando as produções literárias e artísticas eventualmente inspiradas por aquele objecto, por aquele local, sondando ainda as simples opiniões de quem comummente o usufrui e os consensos pouco a pouco assim estabelecidos.
Em última análise,deverá o futuro interventor deixar-se também ele penetrar pelo "espírito do lugar", esquecendo por instantes os seus saberes científicos e técnicos – e, mais ainda, as modas e tendências culturais do momento –, predispondo-se, tanto quanto possível, à apreensão de “sensações puras” .
Deverá também deixar passar algum tempo, amadurecer as ideias, as emoções, e agir sem pressas, imbuir-se do ritmo do próprio lugar e não se precipitar em função de pressões de mercado ou de calendarizações políticas. Uma acção impensada, inadequada e superficial, poderá prejudicar mais um bem patrimonial do que largas décadas de simples abandono; poderá fundamentalmente prejudicar, entenda-se, a sua componente imaterial, a sua dimensão sensível e vivencial.
Acreditamos que na recuperação e valorização de um monumento, de um centro histórico, de uma paisagem, o interventor revela a sua ciência, ponderação, maturidade e qualidade na ordem inversa da visibilidade das marcas que vier a deixar na realidade patrimonial e ambiental pré-existentes, perante o observador comum.
Em questões de património histórico e ambiental, à inteligência e ao saber ter-se-á necessariamente de aliar a humildade, a serenidade e a independência de pensamento.
Decerto que arquitectos, paisagistas e outros terão múltiplas ocasiões, ao longo das suas carreiras, de inovar, de mostrar a sua força criativa, de transmitir as suas mensagens personalizadas como artistas e como homens, de marcar o seu cunho na roda do tempo. Mas não – decididamente não – ao actuar sobre o legado patrimonial. Aqui, as intervenções deverão ser minimalistas e forçosamente condicionadas não só pelas especificidades materiais dos bens, mas ainda – e, arriscaríamos a dizer, principalmente – pelas suas especificidades ambientais, pelo seu genius loci.
Esta é fundamentalmente, como já referimos, uma preocupação da nossa época e, como tal, desde há alguns anos tem ocupado o centro das discussões nas principais sedes pensantes que se ocupam das questões do Património, da Cultura, do Ambiente e do Homem de forma interactiva – como a UNESCO.
E é uma preocupação da nossa época porque a preservação da dimensão imaterial de um objecto artístico, de um local histórico, se prende hoje com o próprio equilíbrio psíquico e afectivo do indivíduo e, em derradeira análise, da própria sociedade.
Vivemos num contexto cada vez mais permanente de não-lugares, de espaços indiferenciados e desumanizados; vivemos cada vez mais sob a pressão dos instantes que se escoam e não mais regressam, das horas e dos anos que passam céleres
e se esfumam como nuvens sopradas por um vento constante e implacável.
Os monumentos, os centros históricos, as paisagens, são algumas das principais âncoras que nos restam. Mas apenas se o sonho que sobre eles construímos não se desfizer; apenas se nós, interventores do Património, soubermos manter viva –
e mesmo, porventura, revivificar – a personalidade própria de cada sítio, a sua alma mater.
(Texto retirado deste website)
Comissário da Paisagem Cultural de Sintra
Durante décadas os problemas relacionados com a recuperação de um monumento, de um centro histórico, mesmo de uma paisagem, resumiam-se essencialmente à optimização das técnicas interventivas, tendo em vista preservar a autenticidade do bem e, tanto quanto possível, conciliar, sob o ponto de vista da ciência dos materiais, os novos produtos empregues nos restauros com as estruturas originais. Tratava-se, pois, de um assunto eminentemente técnico, no âmbito da engenharia e do restauro, o qual – pesem embora várias diferenças de escola – não constitui hoje motivo de especial polémica, encontrando-se de há muito consensualizados os processos mais eficazes a aplicar.
Muitas vezes um visitante não é especialmente atraído pelo estilo de um edifício, pelo rigor urbanístico de um bairro, ou pela raridade de uma espécie vegetal,
A nossa época não se contenta com exactidões matemáticas, antes procura as insondáveis subtilezas inerentes ao subjectivo. Usufruir um sítio, contemplá-lo, não se faz só com o cérebro, mas também – e principalmente – com a alma.
Evidentemente que a reabilitação de um centro urbano, a recuperação de imóveis ou de jardins históricos, implicam necessariamente a utilização das técnicas credenciadas, a nível internacional, pela ciência e pela prática. Mas haverá também que saber conciliá-las com a intransigente protecção do "génio do lugar", sob pena de transformar um organismo vivo num simples corpo embalsamado.
Este é um desafio da actualidade, dos nossos tempos, da nossa geração. As soluções não são simples, nem universais, nem mesmo unânimes. Mas há que encarar de frente o problema, evitando sempre as respostas mais fáceis, as intervenções estandardizadas, os lugares-comuns.
Trata-se de evidenciar e preservar a componente imaterial que envolve um monumento, um centro histórico, uma paisagem, componente imaterial que muitas vezes se cristalizou no imaginário colectivo não só por directa acção das intrínsecas características ambientais de um objecto, de um local, mas também a partir
de determinada visão privilegiada a dada altura fixada num poema, num romance, num texto de viagem, numa tela, e que veio ulteriormente a condicionar não só o modo de olhar e de usufruir esse bem patrimonial, mas também a criar expectativas previamente construídas no imaginário dos potenciais visitantes.
Poetas como Lord Byron, escritores como Pierre Loti, ou os pintores orientalistas – entre tantos outros –, emprestam-nos os seus olhos para, através deles, contemplarmos a realidade. E tanto mais nos sentimos identificados com essa mesma realidade quanto a nossa própria observação coincida com os parâmetros culturais previamente adquiridos, acreditados – e tantas vezes sonhados.
Como actuar, pois, para preservar, para manter viva essa componente imaterial, esse património intangível – a “alma” de um sítio?
Em primeiro lugar,
Para tal importa não só analisar detalhadamente o bem patrimonial em causa, em todas as suas vertentes materiais, necessariamente solidárias e complementares, procedendo a uma minuciosa observação directa,
Em última análise,
Deverá também deixar passar algum tempo, amadurecer as ideias, as emoções, e agir sem pressas, imbuir-se do ritmo do próprio lugar e não se precipitar em função de pressões de mercado ou de calendarizações políticas. Uma acção impensada, inadequada e superficial, poderá prejudicar mais um bem patrimonial do que largas décadas de simples abandono; poderá fundamentalmente prejudicar, entenda-se, a sua componente imaterial, a sua dimensão sensível e vivencial.
Acreditamos que na recuperação e valorização de um monumento, de um centro histórico, de uma paisagem, o interventor revela a sua ciência, ponderação, maturidade e qualidade na ordem inversa da visibilidade das marcas que vier a deixar na realidade patrimonial e ambiental pré-existentes, perante o observador comum.
Em questões de património histórico e ambiental, à inteligência e ao saber ter-se-á necessariamente de aliar a humildade, a serenidade e a independência de pensamento.
Decerto que arquitectos, paisagistas e outros terão múltiplas ocasiões, ao longo das suas carreiras, de inovar, de mostrar a sua força criativa, de transmitir as suas mensagens personalizadas como artistas e como homens, de marcar o seu cunho na roda do tempo. Mas não – decididamente não – ao actuar sobre o legado patrimonial. Aqui, as intervenções deverão ser minimalistas e forçosamente condicionadas não só pelas especificidades materiais dos bens, mas ainda – e, arriscaríamos a dizer, principalmente – pelas suas especificidades ambientais, pelo seu genius loci.
Esta é fundamentalmente, como já referimos, uma preocupação da nossa época e, como tal, desde há alguns anos tem ocupado o centro das discussões nas principais sedes pensantes que se ocupam das questões do Património, da Cultura, do Ambiente e do Homem de forma interactiva – como a UNESCO.
E é uma preocupação da nossa época porque a preservação da dimensão imaterial de um objecto artístico, de um local histórico, se prende hoje com o próprio equilíbrio psíquico e afectivo do indivíduo e, em derradeira análise, da própria sociedade.
Vivemos num contexto cada vez mais permanente de não-lugares, de espaços indiferenciados e desumanizados; vivemos cada vez mais sob a pressão dos instantes que se escoam e não mais regressam, das horas e dos anos que passam céleres
e se esfumam como nuvens sopradas por um vento constante e implacável.
Os monumentos, os centros históricos, as paisagens, são algumas das principais âncoras que nos restam. Mas apenas se o sonho que sobre eles construímos não se desfizer; apenas se nós, interventores do Património, soubermos manter viva –
e mesmo, porventura, revivificar – a personalidade própria de cada sítio, a sua alma mater.
(Texto retirado deste website)
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