sexta-feira, 6 de março de 2009

Sobre as notas biográficas de João de Castro, neto do 4º Vice-Rei da Índia

De Sebastianismo temos falado aqui, no SOS Capuchos, avulso e sempre que o tema se justifica. Ora, é a ele que regressamos, para abordar ao de leve a figura de um João de Castro, que não o 4º Vice Rei da Índia, mas antes um seu neto, filho bastardo de D. Álvaro de Castro, e nome maior da defesa do célebre Cavaleiro da Cruz, que acreditava ser de facto o Rei desaparecido D.Sebastião.

Vale a pena ler a biografia deste João de Castro, que viveu na infância com a sua avó D. Leonor Coutinho, até ingressar ainda menino no Mosteiro de Nossa Senhora da Penha Longa (Jerónimo), no sopé da Serra de Sintra.

Ali conheceu um seu companheiro de viagem, "moço honrado de Sintra" e filho de um mestre de obras local conhecido do Cardeal Rei D. Henrique (monarca português ligado à história do Convento), com quem fugiu - pela calada da noite - da Penha Longa, em busca de aventura e outro sentido para a vida. Chamava-se Manuel Carreira.

D. João de Castro (neto) conta-nos nas suas notas autobiográficas que com o seu amigo do tempo da "Pera-Longa" viajou até Évora, ali se fazendo estudante na Universidade local. O neto do Vice-Rei viveu durante alguns anos da misericórdia e esmola alheia, sendo por mais de uma vez referido por si um estudante africano, negro, de seu nome João Pinto ("homem preto, natural do Congo, ou de Angola").

A vida deste descendente do fundador-espiritual do Convento não se cruza, pelo menos que disso eu tenha conhecimento, com os Capuchos de Sintra... Mas no texto que felizmente nos deixou acerca da sua vida meio-vagabunda refere que Manuel Carreira o deixou em Évora, regressando para a casa de seu pai (em Sintra, como já referi), para tomar o hábito franciscano:

"(...) determinou meu companheiro de se tornar para casa de seu pai, como fez, metendo-se ao diante Capucho, ou Descalço (nde: carmelita, portanto), como desejava; de que não sei mais.".

Pergunto-me se Manuel Carreira, que desejava muito ser Capucho como refere João de Castro no início do texto, não teria feito o seu noviciado precisamente no Conventinho de Santa Cruz, já que esta é a única casa franciscana do termo de Sintra. Não conheço nenhum registo nem disponho de informação que o confirme.

É de facto uma pena que a documentação relativa à vida do Convento, incluindo os registos da e sobre a Comunidade que entre 1560 e 1834 ali viveu, esteja desaparecida e muito provavelmente arrumada na estante ou cofre de algum particular. Trata-se de documentação de relevante interesse público, na esfera do estudo do lugar em si e da particular vivência do franciscanismo ali praticada.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Leitura aconselhada

Frei Marcos de Lisboa (ou de Betânia), nascido em 1511 e falecido no Porto, cidade de que foi Bispo na fase final da sua vida, em 1591, é um dos nomes maiores do franciscanismo português do século XVI. Feito cronista da Ordem por Frei André da Ínsua, viajou pelo estrangeiro (Espanha, França, Alemanha e Itália), acompanhado por Frei Honório de Santa Maria, frade natural das terras minhotas de Arcos de Valdevez, que em 1561 se recolheu ao Conventinho de Sintra, e nele levou uma vida de grande santidade e devoção a Deus.

Frei Marcos escreveu algumas obras importantes, de entre as quais se destacam as suas Crónicas da Ordem dos Frades Menores, parcialmente disponíveis através da internet. Para aceder a esta obra que vivamente aconselho, clique aqui.

O marco viário do século XVII da Estrada Velha Sintra-Colares

"Na estrada velha de Sintra a Colares, um pouco abaixo do portão de Monserrate, existe o primitivo caminho que lhe dava acesso (nde: ao Convento, vindos da Vila). Está assinalado, do nosso lado esquerdo, por um marco viário do século XVII que diz: «Caminho para o Convento de Santa Cruz da Serra, vulgo Capuchos».

Só a pé se pode percorrer e a subida pela serra torna-se algo penosa.

Noutra face desse marco viário vê-se a data de 1650 e umas letras que o grande arqueólogo Dr. Félix Alves Pereira, no seu livro póstumo Sintra do Pretérito, confessa não ter conseguido interpretar.

Parente amigo, estudioso e pessoa que se interessa por estas coisas, dá-lhe a seguinte interpretação: «Por mandado do Dr. Juiz de Fora».

Repare o leitor na gravura que acompanha este artigo (desenho por mim feito em 1957) e, julgo, também chegará a essa conclusão."

Excerto do Capítulo dedicado ao Convento dos Capuchos, incluído no livro "Recantos e Espaços", do ilustre autor José Alfredo da Costa Azevedo (1907-1991), um dos nomes maiores do século XX no Concelho de Sintra.

quarta-feira, 4 de março de 2009

O Terreiro da Fonte

Saídos do pequeno pátio que se segue ao arco formado pelas fragas do portão, entramos num terreiro um pouco mais amplo, já com o Convento bem à vista, e que termina no Alpendre da Portaria, de que nos ocuparemos no futuro.

Maravilhoso, este espaço.

À esquerda, duas mesas servidas por bancos corridos de pedra, emolduram uma belíssima fonte, da qual sai ininterruptamente água limpa e fresca da Serra. Destas meses se diz que era local de eleição para o descanso e refeições de D. Sebastião, nas suas deslocações aos Capuchos.

A fonte está bastante degradada, faltando-lhe parte do bonito revestimento pétreo da sua estrutura. Ao centro, por cima da bica, um nicho guardava - ao que consta - uma imagem de Nossa Senhora da Rocha. Rocha, Roca, Pedra, Penha, Pena. Sinónimos que se repetem um pouco por toda a Serra de Sintra, evocando de forma por demais evidente a natureza sagrada deste monte de colossais e ciclópicos blocos graníticos.

A imagem desapareceu. Uma entre muitas imagens desaparecidas do primitivo recheio conventual. Dela restam antigas referências do século XIX. Ainda existirá? Quase a consigo imaginar a servir de "decoração" na casa de um particular... Triste destino para uma imagem que outrora viveu mais junto ao Céu, no cimo do Monte Ida português.

A vegetação do terreiro é hoje muito menos densa do que há alguns anos. Estará mais limpo para uns, menos próximo da sua natureza para outros. Seja como for, o fundamental da sua beleza está lá, que o sinta quem conseguir sintonizar no seu coração o bater do órgão vital da Serra, de que nos aproximamos.

Junto ao Telheiro, do lado da parede da sacrístia/coro cuja janela dá para este pátio (a janela que, vista de dentro, reproduzo em fotografia no cabeçalho deste blog), bonitos brincos de princesa emprestam ao lugar - em determinadas alturas do ano - uma cor verdadeiramente deslumbrante...

Que não se deslumbre o visitante, todavia. Este é um lugar de encontro com a verdade, e para a sentir temos de estar despertos para a Realidade.

Para ouvir o Convento não o tentemos ouvir. É que a ele se aplica por completo este excerto de Mensagem de Fernando Pessoa, incluído no poema "As Ilhas Afortunadas":

"(...)
E a voz de alguém que nos fala,
Mas que, se escutarmos, cala,
Por ter havido escutar."

Diogo Bernardes, sobre o noviciado de Agostinho da Cruz

"Em que te mereci, oh Agostinho
Que n'esta escura selva me deixasses
Tomando para ti melhor caminho?"

Agostinho Pimenta toma hábito, adopta o nome religioso de Fr. Agostinho da Cruz, e é o poeta Diogo Bernardes quem se lamenta do irmão o deixar "n'esta escura selva", que é a realidade exterior aos seus votos e à sua nova casa, em Sintra, para tomar "melhor caminho".

Diogo Bernardes era, segundo alguns autores, amigo pessoal de Camões, e homem bem relacionado com o Rei-Menino D.Sebastião, que lhe pediu que com ele embarcasse para o Norte de África, em vésperas dos acontecimentos de Álcacer-Quibir.

Talvez seja esta a justificação para alguns afirmarem que, contrariamente ao que muitos defendem, a leitura que Camões fez dos Lusíadas perante D.Sebastião não teria acontecido no Paço de Sintra, nem sequer na Penha Verde (como afirma Garret, no livro que dedicado ao poeta maior da nossa história) mas antes nos Capuchos.

D.Sebastião seria, assim o creio, visita regular dos franciscanos de Sintra, e poderá ter acontecido o próprio Camões ter visitado o Convento a convite de Bernardes, que ali tinha como frade o seu irmão Agostinho. Poderá? Especulação pura, já que para além da tradição oral e da convicção de alguns estudiosos do tema, nada prova que assim tenha acontecido, e as relações familiares e de amizade entre os intervenientes não é base suficiente de sustentação.

Também se afirma que teria sido no Convento que D.Sebastião teria escrito as cartas de mobilização para a Campanha do Norte de África, em número que rondaria as oito mil... Frei Bernardo da Cruz confirma, na sua "Chronica de El Rei D.Sebastião" que as cartas foram escritas em Sintra, mas nada de concreto e objectivo se diz acerca do local da Serra ou da Vila onde as mesmas foram redigidas.

Seja como for, a ligação do Convento ao Sebastianismo é imensa. Porque foi local de visita do Rei-Menino, porque a tradição local liga - pelo menos em parte - a leitura dos Lusíadas e as cartas de mobilização para África ao cenóbio franciscano, porque ali passou alguns meses o "falso D.Sebastião" que se chamava Mateus Álvares, e que ficou para a história conhecido como "o Rei da Ericeira"...

terça-feira, 3 de março de 2009

Um texto fundamental sobre o Convento

"Espelho de Penitentes e Chronica da Provincia de Santa Maria da Arrabida", da autoria de Fr. Antonio da Piedade (Lisboa, 1728).

Clique aqui para aceder ao capítulo XV da Parte I, Livro II, "Fundação do Convento de Santa Cruz da Serra de Cintra".

Poema dedicado a Fr. Agostinho da Cruz

Agostinho Pimenta, que ficou imortalizado com o seu nome religioso de Frei Agostinho da Cruz, foi noviço nos Capuchos de Sintra, tendo aliás feito parte da comunidade inicial que ali se estabeleceu após a fundação do cenóbio, em 1560. É precisamente a essa filiação que alude Santos Cravina no seu soneto "Do berço à tumba", de 1941, incluído no volume "O místico da Arrábida", dedicado ao poeta e místico franciscano.

"Do berço à tumba"

Ponte da Barca é berço do Poeta
de Agostinho Pimenta batisado.
Lá junto ao Lima foi predestinado
para servir a Deus em vida asceta...

De flôres seu caminho se atapeta
em Santa Cruz de Sintra a Deus é dado,
a Setúbal passando. Além do Sado
do Ceu descobre a linda estrada recta.

Ergue na Arrábida a alta Cruz e canta
da Natura e da Fé em mistério
a inteligência humana absorve e espanta...

Servindo a Deus no arrábido ermitério
em Setúbal lhe dá a sua alma santa
e a Arrábida é-lhe Tumba e cemitério.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Capuchos ao abandono...

Diz-me quem lá esteve que no passado sábado o Convento estava novamente vazio de pessoas da PSML, com excepção da bilheteira. Naturalmente que se trata de uma situação recorrente, esta coisa de se deixar o Convento abandonado e entregue ao bom senso (ou mau senso, depende) dos visitantes.